Por Aluísio Azevedo (1895)
Mas ele a queria, não como ela era ultimamente, porém, como dantes, quando o amava, quando vinha recebê-lo à porta da rua e não o abandonava senão quando ele tornava a sair de casa.
Assim é que a queria - companheira, amiga, unida e inseparável.
- Ah! Se eu não tivesse me incompatibilizado com ela!... Se pudesse ir buscá-la, traze-la aqui para o meu gabinete, desfrutar a sua companhia, gozar o seu coração!... Oh! mais tudo isto já não pode ser! Está tudo perdido! Ela continua a ver em mim um vaidoso, um fátuo, um homem ainda menor que o mais vulgar! Nunca mais poderei ser para Branca o que fui, o que ela me julgou na cegueira do seu primeiro amor!
E Teobaldo deixou-se cair de novo na cadeira, com o rosto escondido entre as mãos, a respiração convulsa, os olhos ardendo como se fossem duas chagas.
- Se eu não tivesse sido para ela o que fui, talvez, quem sabe? tivéssemos agora um filhinho?
Esta idéia lhe trouxe uma golfada de soluços.
E, no seu desespero, ele via esse filho imaginário; esse ente que nunca existira e de quem ele tinha saudades, porque entre os vivos não encontrava um coração que o recebesse.
Chorou muito ainda, depois ergueu-se e saiu do gabinete.
Atravessou como um sonâmbulo os aposentos da casa, ate chegar ao corredor por onde se ia ao quarto de Branca.
A porta estava fechada.
- Se ela soubesse quanto eu sofro!... Ela, que é tão boa, tão compassiva e tão casta, talvez, tivesse compaixão de mim!...
Mas não se animou a bater.
- Havia tanto tempo que não se falavam senão em público!... Ele tantas vezes desdenhara dos seus carinhos; tantas vezes fingira não compreender as lágrimas dela!...
Abandonou de novo o corredor, na intenção firme de recolher-se à cama.
Chamou o criado, pediu conhaque, bebeu, despiu-se e deitou-se. Não conseguiu dormir. Tocou de novo a campainha.
- Meu amo chamou?
- Sim. Vê roupa. Torno a sair.
- Mas V. Exa. parece incomodado; creio que faria melhor em...
- Vê roupa! Não ouves?!
E, quando o criado ia de novo a sair, depois de cumprida aquela ordem: - 0lha!
- Senhor!
- Chama o Caetano.
Era uma idéia que lhe acudira com vislumbres de inspiração.
- O Caetano... repetiu o criado, saiba V. Exa. que o Caetano está de cama.
- De cama?... Que tem ele?
Amanheceu há quatro dias com muita febre e ainda não melhorou.
- Achava-se nesse estado, e nada me diziam! Canalha!
- Peço perdão, mas devo notar que o senhor conselheiro há muito tempo que não aparece a ninguém.
- Cala-te. Sou capaz de apostar que deixaram sozinho o pobre do velho!...
- Saiba V. Exa. que a Sra. D. Branca, que o tem ido ver muitas vezes todos os dias, deu ordem ao Sabino para não sair do lado dele.
- Bem. Previne ao Sabino que eu quero ir ver o Caetano.
O criado, surpreso com estas palavras, mas sem o dar a perceber, afastou-se imediatamente; ao passo que o amo, vestindo-se às pressas e, contra o seu costume, em desalinho, abandonou ainda uma vez o gabinete e ganhou em direitura ao quarto do enfermo.
Não era, como ele próprio supunha na sua necessidade de fazer bem, o interesse pelo velho servo de seu avô e companheiro de seu pai o que o impelia àquele ato de piedade, mas simplesmente a urgência de falar com alguém que ainda o estimasse; alguém que lhe arrancasse o coração do lastimável estado em que se achava naquele instante. Recebeu um logro. O pobre velho não dava mais acordo de si e só dizia palavras desnorteadas pelo delírio da febre.
- Não me reconheces, amigo velho? perguntou-lhe o conselheiro, amparando-se-lhe das mãos hirtas e nodosas.
- Sim, Nho Miló? Meta a espora no cavalo, que os Saquaremas, embicando por este lado, hão de encontrar homem pela proa!
E os olhos do velho torciam-se nas órbitas com um aceso de cólera senil.
- Sonha com meu pai e com as revoluções de Minas!... pensou Teobaldo entristecido. Ah! o Barão do Palmar foi ao menos um homem! É justo que este desgraçado lhe dedique os seus últimos pensamentos em vez de os dedicar a mim, que nem isto mereço. É justo! É justo!
E saiu dali para esconder o seu desespero contra aquele maldito velho, que, no delírio da morte, não achava uma palavra de consolação para lhe dar.
Atravessou a chácara sem levantar a cabeça, o ar muito sombrio e pesado, os olhos fundos e cheios de sangue.
Quando chegou à rua, estacou e pôs-se a olhar para as águas da baía que se douravam aos primeiros raios de sol.
Pôs-se a andar pela praia, vagarosamente, quase que sem consciência do que fazia. E o dia, que apontava, um dia triste e cheio de névoas, um dia sem horizonte, como o próprio espírito de Teobaldo, ainda mais lhe agravava o mal-estar.
Ele sentia frio e dores por todo o corpo.
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio Azevedo. O coruja. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7406 . Acesso em: 18 mar. 2026.