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#Romances#Literatura Brasileira

A Mortalha de Alzira

Por Aluísio Azevedo (1891)

— Não! acrescentou o materialista, perdendo por um instante a sua fleuma natural e deixando escapar dos olhos uma estranha cintilação, que lhe transformou o ar bondoso da fisionomia. Não há de ser com súplicas e sermões que a França se resgatará, mas a metralha, a canhão e a ponta de baionetas!

— A sangue?! exclamou o conde.

— Sim, a sangue... confirmou o médico, sacudindo a cabeça.

E calaram-se.

O sorriso havia desaparecido de todos os lábios; as mulheres tinham desmaiado de cor ligeiramente. Cobalt acrescentou em voz cava, como se falasse consigo mesmo:

— O que talvez não esteja longe!...

E um indeciso sobressalto agitou-lhes o sangue e oprimiu-lhes vagamente o coração, nem que naquele momento entrasse ali, como um sopro pressagio, agitando as cortinas da sala e empalidecendo a luz das velas, um clarão vermelho vindo das bandas setentrionais da América.

Era o anélito da revolução que se aproximava lentamente da França.

Se prestassem ouvidos, quem sabe? talvez escutassem um surdo ruído subterrâneo: Diderot e d'Alembert abriram já a sua mina por debaixo da terra, para depois Voltaire lançar-lhe fogo.

Só Alzira não parecia sobressaltada. Encaminhando-se para o Dr. Cobalt, tomou-o pelo braço, afastou-o para um canto da sala e perguntou-lhe, reclinando no ombro dele a sua formosa cabeça:

— Já sabe qual é o dia marcado para a missa nova do padre Ângelo?...

— Segunda-feira.

— Onde?

— Em Notre-Dame.

— Quer ir comigo?

— Com mil desejos, minha encantadora amiga.

— Obrigada. Iremos juntos.

CAPÍTULO VIII

Fulminação

No dia marcado para a missa nova de Ângelo, a catedral de Paris, onde devia ela efetuar-se, começou desde muito cedo, a encher-se de gente de todas as classes, desde a mais alta até à mais baixa camada social.

Iria o rei, e com ele lá estaria, sem dúvida, a corte em peso. A corte arrastaria o que de mais brilhante houvesse no alegre círculo das loureiras; estas, por sua vez, chamariam atrás de si um mundo de namorados, de poetas, de artistas e folgazões, aos quais acompanharia espontâneo o povo, sempre curioso e ávido de festas.

Num dos longos corredores laterais da sacristia, corredor abobadado e feito todo de pedra, o Dr. Cobalt conversava tranqüilamente com um padre velho chamado Azarias, e com um sacristão que se mostrava muito entusiasmado com a escandalosa e original fortuna do seminarista.

O médico não tinha perdido a sua calma habitual; dir-se-ia que ele estava ali mais para observar do que para se divertir. Com os seus frios lábios sempre contraídos, parecia abstrato e afagava o queixo escanhoado, cheirando de vez em quando uma pitada. O sacristão, esse não ficava quieto um só instante, ia e vinha de carreira, furando por toda a parte, e procurando saber quem estava na igreja.

— Chih! exclamava ele esfregando as mãos defronte o padre Azarias. Que furor! Que furor! Não imaginam que de gente cada vez mais chega, para assistir à missa nova do discípulo de frei Ozéas! Já vi a Sr.a marquesa de Vandenesse e a sua encantadora irmã: a Sr.a De Conti, a Sr.a condessa de Laranguais, de quem dizem que o rei...

E interrompeu-se para declarar, dando um salto e apontando para uma das portas por onde se via quem chegava:

— Olhem! Olhem! ali vai o poeta Bouflers!... vai com o conde de Saint-Malo e com o cavalheiro Artur Bouvier. Agora entrou a Sra. marquesa de Tourneles!

— Ora! disse Azarias. Pois se até a rainha, que agora pouco sai à rua, aposto que há de vir!...

O sacristão, depois de novas carreiras e novo esfregar de mãos, veio segredar quase ao ouvido do padre:

— E veio também, reverendo, o que há de mais espaventoso entre o mulherio parisiense!...

— Ó maroto! resmungou o velho sacerdote. Alguém aqui te perguntou por isso? Anda! Sai de junto de mim, tinhoso!

O sacristão voltou-se então para o médico, e disse, contando pelos dedos:

— Está aí a falada Dutê, com o seu eterno vestido cor-de-rosa e com o seu atual amante, o duque de Durfort! Está aí Sofia Arnould com o seu cãozinho— o duque de Chartres!

— Não te calarás?! bradou o padre velho, tornando-se vermelho.

O sacristão não fez caso e continuou, dirigindo-se ao médico, como se esse lhe desse atenção:

— Vieram também as Barrière, com as quais confesso que embirro solenemente, a Dervieux, de quem eu cada vez mais gosto, a Guimard, a Cleofile, e, mais bela que todas, mais sedutora e mais diabólica, a célebre condessa Alzira, a mulher mais insensível de Paris! veio com o seu amante destes últimos tempos, o marquês de Florans!

— liste sacristão é entendido no gênero!... Observou o materialista a rir-se.

O padre resmungou, em resposta, coçando a calva:

— Ah! Paris! Paris das Pompadours!...

— Também acaba de chegar! exclamou o endemoninhado sacristão. Está na primeira tribuna da esquerda, com o príncipe de Henin e o conde de Aranda.

O velho tornou a coçar a cabeça e disse com azedume.

(continua...)

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