Por Aluísio Azevedo (1897)
Era branca, fina, delgada, de longos dedos roliços e bem guarnecidos.
— Então! repetiu ela, fazendo um gesto de impaciência com o braço. Tenha a bondade de passarme a fruteira.
Gaspar caiu em si e pediulhe mil perdões. Violante que lhe desculpasse aquela abstração — ele continuava a sonhar!...
E depois de servila de frutas e de vinho, encheu o próprio copo, e bebeu à gentil estrela que o conduzira ali.
Violante olhavao com um sorriso. Terminado o jantar, ergueuse ela e ordenouse ao camareiro que servisse o café no fumoir.
— Dême o seu braço, disse a Gaspar.
E passaramse para a sala próxima.
Violante ofereceu uma poltrona ao hóspede e assentouse em outra. Depois tomando uma cigarrilha de tabaco turco de sobre o bufete, e cruzando negligentemente as pernas, com o cotovelo apoiado ao rebordo da cadeira e a cabeça um tanto pendida para trás, disse a soprar o primeiro hausto de fumo.
— Presteme agora toda a atenção, porque, só depois de ouvir o que lhe vou dizer leal e francamente, é que poderá o senhor decidir se fica desde já em minha companhia, ou se se retira hoje mesmo desta casa...
Gaspar tomou o café, acendeu um charuto, reclinouse mais na poltrona e disse, afagando a barba:
— Pode principiar. Estou às suas ordens...
— Quando eu tinha cinco anos, começou Violante, depois de fitar o teto, como quem evoca o passado, minha mãe sucumbia à miséria nesta cidade, e meu pai aos golpes do partido revolucionário em Cadiz. Ora, eu, que sempre acompanhara minha mãe em todas as suas peregrinações, acheime de repente com ela morta nos braços, sem saber, coitada de mim! fazer outra cousa que não fosse chorar. Saí, entretanto, pedindo, àtoa, a quem encontrava pela rua, onde fosse comigo por piedade à casa para tratarmos de enterrar o cadáver. Todos me davam as costas; e eu, já desesperada, estalando de fome e de frio, cheia de terrores, atireime contra uma porta, a soluçar e a pedir a Deus que me levasse também para si.
Nessa conjuntura, senti no ombro uma carinhosa mão que me fez voltar a cabeça. Tinha defronte dos lhos um oficial brasileiro. A princípio, fezme medo com o uniforme e as suas barbas; mas era tão calma e compassiva a expressão da sua fisionomia, que me animei a encarálo; além disso, a presença de uma senhora e duas crianças de minha idade, que o acompanhavam, me restituíam logo a tranqüilidade e, sem saber por que, sorri para aquela gente.
Oh! nunca mais me esqueci da fisionomia desse oficial! "Que tens tu?!" disseme ele em mau espanhol, passandome a mão pela cabeça.
"Tenho minha mãe morta em casa, naquela rua, e faltame o ânimo de voltar para lá sozinha!"
O oficial refletiu um instante e trocou algumas palavras em português com a mulher. Depois, deulhe o braço, e começaram a acompanharme com os pequenos.
(Gaspar apertou os olhos, fazendo um esforço de memória.)
— Quando chegamos à casa, continuou Violante, ficaram todos horrorizados. O espetáculo da miséria completavase com o cadáver de minha pobre mãe, que jazia por terra. Não era só compaixão o que inspirava aquilo; era mais: era revolta e ódio contra tamanha incúria de Deus!
"Esta criança naturalmente está caindo de fome", disse a senhora ao marido.
"Muito!" afirmei eu, que compreendera essas palavras.
Então tirou aquela da sua maleta de mão alguns biscoitos, que trazia para os filhos, e deumos, acrescentando: "Em casa jantaremos juntos".
O marido perguntoulhe se ela sabia ir só para o hotel.
"Perfeitamente", respondeu a senhora.
"Pois leva os nossos pequenos e esta infelizinha; eu fico para provindenciar sobre o enterro."
Quis eu então atirarme aos pés do meu benfeitor; mas a idéia de que nunca mais veria minha mãe, fezme abrir em soluços e precipitarme sobre o seu cadáver, para lhe dar o último beijo.
A senhora do oficial arrancoume dali, e levoume para sua casa pela mão.
Só no dia seguinte, quando acordei, na melhor cama da minha vida, soube que minha mãe fora dignamente sepultada, e que eu ficaria morando ali onde me achava.
O oficial, de que lhe acabo de falar, chamavase Pinto Leite, e seus dois filhinhos eram: um Gaspar e o outro Ana.
— É exato! e! Bem me recordo da pequenita que brincou comigo em outro tempo! confirmou Gaspar com muito interesse. Mas se me não engano, essa pequenita fora para um colégio, quando...
— Já lá vamos! Já lá vamos! respondeu Violante; ouça o resto.
E continuou:
— Passei um ano em casa de seu pai. Aí aprendi a ler, rezar e cozer com sua mãe. Foi nessa época que nasceu sua irmã mais moça; a Virgínia. O senhor não calcula que boas recordações tenho eu desse tempo! Também não podia ser por menos: até aí só conhecera sofrimentos e privações, e lá fui encontrar a paz, o conforto e até o amor. Sua mãe, a quem Deus haja, era uma santa!
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio. A Condessa Vésper. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2124 . Acesso em: 8 mar. 2026.