Por Joaquim Manuel de Macedo (1861)
« Reunirão-se as camaras extraordinariamente; mas permittiu-se a todos os representantes e espectadores das galerias estar em mangas de camisa. »
« NOVE HORAS. »
« A policia mandou espalhar pelas ruas da cidade todos os folies que encontrou nas ferrarias e casas de fundição : os pedestres e accendedores de gaz occupão-se em tocar folles. No thesouro publico deu-se ordem par que os empregados entrassem de chapéo na cabeça e casaca abotoada : é uma medida que está em harmonia com a anterior que tinha banido os chapéos.
« DEZ HORAS. »
« Ha febre na praça : as acções de todas as companhias sobem espantosamente; ha uma alta geral; querem todos morrer, provando que são homens de acções. »
« ONZE HORAS. »
«O cometa está quasi não quasi sobre nós ; no rua do Rosario vendem-se todos os queijos assados ; das bicas das esquinas e de todos os chafarizes, a agua corre fervendo. — Conciliárão-se definitivamente os partidos politicos. — As pessoas magras ainda se movem e fallão : o nosso amigo Pitada queixa-se muito do calor, mas ainda se suppõe com forças para resistir. Aquellas que pelo contrario são gordas, já estão prostradas e quasi moribundas ; o Sr. Camara, que chegara ante-hontem de Petropolis, acaba de morrer. »
« MEIO-DIA. »
« Hoc opus hic labor est, chegou a hora suprema. »
XV
Tudo portanto estava acabado! eu era o unico vivente que se achava na cidade muito leal e heroica; oh! tive vontade de chorar desesperado, como Mario nas ruinas de Carthago!
Via-me prodigiosamente rico : tinha palacios, pertencião-me o thesouro publico, os cofres de todos os usurarios, possuia riquezas incalculaveis: era porém uma espécie de Adão sem Eva, e ainda em cima um Adão, que, em vez de habitar no Paraiso, devia morar em um cemitério descommunal!
Arrependi-me de haver fugido do cometa: mil vezes antes morrer assado do que sobreviver a um tal cataclysmo para ficar em isolamento e na mais completa impossibilidade de ser o tronco de uma nova geração!
Ah Martinho! Martinho! como poderás viver sem aquelle amado e respeitavel publico que te applaudia no theatro, que te encoraja com seus bravos e suas palmas, como ?...
XVI.
Fazendo estas afflictivas reflexões cheguei á rua do Conde, e por curiosidade entrei na casa da policia. Triste espectaculo ! O chefe de policia morrera no acto de pagar o subsidio mensal devido a uns dous publicistas independentes, que estavão em pé também petrificados, com os braços estendidos e as mãos abertas para receber os cum quibus. Se houvesse ainda alguém que pudesse olhar para aquellas duas nobres figuras, e reparasse em seus labios entreabertos, adivinharia logo, como eu adivinhei, que os illustrados publicistas tinhão sido torrificados no momento em que dizião : Venha, a nós .
XVII.
Deixei a policia, e para distrahir-me quiz tomar o fresco no campo da Acclamação. O espirito de classe obrigou-me a penetrar no barracão do Provisorio.
Subi ao salão ; e que scena havia de se offerecera meus olhos?... Ah!... todas as constas da companhia lyrica tinhão morrido no meio de um ensaio! desgraçadas!... liavião feito pausa final... eterna.
Aquellas flores viçosas e bellas ! aquelle formoso grupo de encantadoras fadas !... aquellas nymphas, ou divindades de belleza arrebatadora e de voz de rouxinol, coitadinhas ! estavão todas prostradas e sem vida; mas nem uma so dellas se esquecera de morrer em posição grave e composta.
E diante d'ellas em pé, como em extasis, porém morto e bem morto, destacava-se a figura do meu amigo Dionysio, de batuta na mão e com o mais terno e suave dos olhares cravado no grupo encantador!
Ah Dionysio ! foste mais feliz do que eu! morreste abrasado por dous fogos : fogo do cometa e fogo de amor ! sempre é uma consolação morrer assim. Requiescat in pace.
XVIII.
Quando eu acabava de proferir estas palavras em louvor e honra de meu amigo Dionysio, de subito e inesperadamente, escuto uma voz murmurar:
— Quem falla ahi em amor ?...
Dei um salto : era uma voz humana, o mais apreciavel dos thesouros para mim ; e mais ainda, era uma voz feminina, era a Eva que eu, pobre Adão, ardentemente desejava para bem da humanidade, que não se devia extinguir.
Oh! não se pôde fazer idéa da minha sorpresa, da minha alegria, do meu arrebatamento !
Procurei a bocca por onde havia passado aquella voz, e vi inclinada sobre uma cadeira em um canto do salão, mas quasi moribunda, uma joven corista, e que corista !... a senhora X. P. T. O., um demoninho tentador que se apaixonara por mim em 1846 em certa noite em que me ouviu canfar a ária do baleeiro.
Corri a ella, abracei-a, suspirei, chorei, e ato cantei-lhe um pedaço da ária predilecta.
— Ainda vive alguém?... perguntou-me com voz sumida a
divindade.
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. Os romances da semana. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=43487 . Acesso em: 30 jan. 2026.