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#Comédias#Literatura Brasileira

As Casadas Solteiras

Por Martins Pena (1845)

CENA I

Virgínia e Clarice, sentadas junto à mesa, cosendo. Narciso, tendo um papel na mão..

Narciso (entrando) — Está pronto. Muito bem! Meninas, é preciso que assinem este papel.

Virgínia — E que papel é este?

Narciso (apresentando-lhe o papel e uma pena) — A procuração para anular vossos casamentos.

Virgínia — Ah, dê-me! (Toma o papel e assina.) Agora tu, Clarice.

Clarice, toma o papel e assina — Está assinado.

Narciso — Muito bem, muito bem, minhas filhas! Tudo está em regra. Não descansarei enquanto não vir anulados estes malditos casamentos. Casamentos! Patifes, hei de ensiná-los. Já estive esta manhã com o meu letrado, que me dá muito boas esperanças. Minhas filhas, espero em Deus e na Justiça, que amanhã estejais livres.

Clarice — Livres?

Narciso — Sim, sim, e podereis casar-vos de novo com quem quiserdes.

Virgínia — Casarmo-nos de novo?

Narciso — E por que não? Filhas, uma coisa vos quero eu pedir...

Clarice — O quê, meu pai?

Narciso — Fugistes de minha casa; dois meses depois voltastes, e um só queixume ainda não ouvistes de vosso pai, que vos recebeu com os braços abertos. Virgínia — Meu pai... (Levantando-se.)

Clarice (levantando-se) — Ordenai.

Narciso — Amanhã estareis livres, e espero que aceiteis os noivos que eu vos destino.

Clarice — Noivos?

Virgínia — E quem são eles?

Narciso — Para ti será o amigo Serapião.

Virgínia — Serapião?

Narciso (para Clarice) — E para ti, o vizinho Pantaleão.

Clarice — Pantaleão?

Narciso — São duas dignas pessoas. Enfim, trataremos disso; talvez hoje vo-los apresente. Adeus, adeus, que é tarde. Vou daqui ao teatro. Já vos disse que hoje não janto em casa; por conseguinte, quando forem horas, não me esperem. Manda tirar estas vasilhas aqui da sala. (Sai.)

CENA II

As ditas e depois Henriqueta

Virgínia — Que me dizes a esta, mana? Eu, casada com um Serapião!

Clarice — E eu, com um Pantaleão!

Virgínia — Isto não pode ser...

Clarice — Que dúvida!

Virgínia — Até porque ainda nutro certas esperanças...

Clarice — E eu também.

Henriqueta (da porta) — Dá licença?

Virgínia e Clarice — Henriqueta! Entra!

Henriqueta — Como passam vocês?

Virgínia — Bem, e tu?

Henriqueta — Vamos passando. Então, o que há de novo?

Virgínia — Muitas coisas... Amanhã estaremos completamente livres.

Clarice — E poder-nos-emos casar com Serapiões e Pantaleões.

Henriqueta — Hem? O que é isso?

Clarice — É cá um projeto do nosso pai.

Henriqueta — Um projeto?

Virgínia — Meu pai quer nos casar de novo.

Henriqueta — Sim? E vocês consentem em tal, e estão completamente resolvidas a abandonarem os pobres inglesinhos?

Virgínia — Não sei o que te diga...

Clarice — Sabes, Henriqueta, que eles estão cá no Rio?

Henriqueta — Sei. Ontem encontrei o teu, o Bolin, Bolin... Que maldito nome, que nunca pude pronunciar!

Clarice — Bolingbrok.

Henriqueta — Bolinloque a passear no Largo do Paço, vermelho como um camarão. Assim que avistou-me, veio direitinho para mim; mas eu que não estava para aturálo, fiz-me de esquerda e fui andando.

Virgínia — Há quinze dias que chegaram da Bahia, e atormentam-nos com cartas e recados.

Henriqueta — E já encontraste com ele?

Virgínia — Já, em um baile.

Henriqueta — E dançaste com ele?

Virgínia — Não.

Clarice — Por cinco ou seis vezes vieram convidar-nos para contradança, polca e valsa, mas nós, nada de aceitar.

Henriqueta — Coitados!

Clarice — E se tu visses a aflição em que eles estavam! Como viam que nós não os queríamos aceitar para pares, zangados e raivosos agarravam-se ao primeiro par que encontravam, e agora verás! Saltavam como uns demônios... Cada pernada!...

Virgínia — E na polca ia tudo raso, com pontapés e encontrões. Todos fugiam deles. Ah, ah!

Henriqueta — Assim é que os ingleses dançam; é moda entre eles.

Clarice — E depois iam para a sala dos refresco, e - grogue e mais grogue...

Henriqueta — Era para afogar as paixões. Ah, ah, ah!

Virgínia (rindo-se) — Ah, ah, ah! Com que caras estavam!

(continua...)

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