ASSIS, Machado de. Linha reta e linha curva. Jornal das Famílias. Rio de Janeiro, 1871.
Por Machado de Assis (1871)
- Realmente, eu não sei nada.
"Não sabes nada!" disse Tito consigo.
- Falo pelas minhas impressões. Parecia-me que um casamento entre vocês ambos não vinha fora de propósito.
- Se me falas outra vez em casamento, saio.
- Pois só a palavra?
- A palavra, a idéia, tudo.
- Entretanto, admiras e aplaudes o meu casamento...
- Ah! eu aplaudo nos outros muitas cousas de que não sou capaz de usar. Depende da vocação...
Adelaide apareceu à porta da sala de jantar. A conversa cessou entre os dous rapazes.
- Trago-lhe uma notícia.
- Que notícia? perguntaram-lhe os dous.
- Recebi um bilhete de Emília... Pede-nos que vamos lá amanhã, porque...
- Por quê? perguntou Azevedo.
- Talvez dentro de oito dias se retire para a cidade.
- Ah! disse Tito com a maior indiferença deste mundo.
- Apronta as tuas malas, disse Azevedo a Tito.
- Por quê?
- Não segues os passos da deusa?
- Não zombes, cruel amigo! Quando não...
- Anda lá...
Adelaide sorriu ouvindo estas palavras.
Daí a meia hora Tito subiu para o gabinete em que Azevedo tinha os livros. Ia, dizia, ler as Confissões de Santo Agostinho.
- Que repentina viagem é esta? perguntou Azevedo à sua mulher.
- Tens muito empenho em saber?
- Tenho.
- Pois bem. Olha que é segredo. Eu não sei positivamente, mas creio que é uma estratégia.
- Estratégia? Não entendo.
- Eu te digo. Trata-se de prender o Tito.
- Prender?
- Estás hoje tão bronco! Prender pelos laços do amor...
- Ah!
- Emília julgou que deve fazê-lo. É só para brincar. No dia em que ele se declarar vencido fica ela vingada do que ele disse contra o sexo.
- Não está mau... E tu entras nesta estratégia...
- Como conselheira.
- Trama-se então contra um amigo, um alter ego.
- Tá, tá, tá. Cala a boca. Não vás fazer abortar o plano.
Azevedo riu-se a bandeiras despregadas. No fundo achava engraçada a punição premeditada ao pobre Tito.
A visita que Tito disse ter de fazer à viúva naquele dia, não se realizou.
Diogo, que apenas saíra da casa de Azevedo, ciente das intenções da viúva, fora para casa desta esperar o rapaz, embalde lá esteve durante o dia, embalde jantou, embalde aborreceu a tarde inteira tanto a Emília como à tia; Tito não apareceu.
Mas, à noite, à hora em que Diogo, já vexado de tanta demora na casa da moça, tratava de sair, anunciou-se a chegada de Tito.
Emília estremeceu; mas esse movimento escapou a Diogo. Tito entrou na sala onde se achavam Emília, a tia, e Diogo. - Não contava com a sua visita, disse a viúva.
- Eu sou assim; apareço quando não me esperam. Sou como a morte e a sorte grande.
- Agora é a sorte grande, disse Emília.
- Que número é o seu bilhete, minha senhora?
- Número doze, isto é, doze horas que tenho tido o prazer de ter hoje aqui o Sr. Diogo...
- Doze horas! exclamou Tito voltando-se para o velho.
- Sem que ainda o nosso bom amigo nos contasse uma história... - Doze horas! repetiu Tito.
- Que admira, meu caro senhor? perguntou Diogo.
- Acho um pouco estirado...
- As horas contam-se quando são aborrecidas... Peço para me retirar...
E dizendo isto, Diogo travou do chapéu para sair lançando um olhar de despeito e ciúme para a viúva.
- Que é isso? perguntou esta. Onde vai?
- Dou asas às horas, respondeu Diogo ao ouvido de Emília; vão correr depressa agora.
- Perdôo-lhe e peço que se sente.
Diogo sentou-se.
A tia de Emília pediu licença para retirar-se alguns minutos. Ficaram os três.
- Mas então, disse Tito, nem ao menos uma história contou? - Nenhuma.
Emília lançou um olhar a Diogo como para tranqüilizá-lo. Este, mais calmo então, lembrou-se do que Adelaide lhe havia dito, e voltou às boas.
- Afinal de contas, disse ele consigo, o caçoado é ele. Eu sou apenas o meio de prendê-lo... Contribuamos para que se lhe tire a proa.
- Nenhuma história, continuou Emília.
- Pois olhe, eu sei muitas, disse Diogo com intenção.
- Conte uma de tantas que sabe, disse Tito.
- Nada! Por que não conta o senhor?
- Se faz empenho...
- Muito... muito, disse Diogo piscando os olhos. Conte lá, por exemplo, a história do taboqueado, a história das imposturas do amor, a história dos viajantes encouraçados; vá, vá.
(continua...)