Por José de Alencar (1872)
A Cascatinha da Tijuca, porém, prima pela graça; não é esplêndida, é mimosa; em vez da pompa selvagem respira uma certa gentileza de moça elegante; bem se vê que não é uma filha do deserto; está a duas horas da corte, recebe freqüentemente diplomatas, estrangeiros ilustres e a melhor sociedade do Rio de Janeiro.
Assim não se despenha ela com a fúria de uma serpente, mas com a indolência com que uma senhora da moda se derreia no recosto do divã.
Sua voz não é um trovão, mas um rumorejo que embala docemente o coração. Perto dela sente-se no ar o hálito fresco das águas que se esfrolam, e não a constante neblina produzida pelos borbotões que se desfazem em pó com a violência do choque.
O jovem advogado tinha contemplado muitas vezes a Cascatinha, e até já possuía em seu álbum uma aquarela da formosa paisagem; mas nunca a vira tão abundante d’água, tão enfeitada e casquilha. Projetou voltar a pé, depois do almoço, para tirar outra vista. Assim teria a Cascatinha em traje de festa e em desalinho.
Uma voz soou a pouca distância:
- Oh! beautiful! Very beautiful!
Ricardo estava no centro da ponte, com o cavalo atravessado, para ver de frente a Cascatinha. Conhecendo que outras pessoas se aproximavam fez voltar o animal para dar-lhes passagem. Este movimento colocou-o em face de Guida, que chegava.
A moça tinha o mesmo traje de amazona que no domingo passado; mas em vez de serem de camurça amarela as luvas eram de peau de Suède cor de castanha e o chapéu de palha arroz com um véu branco. Salvas essas ligeiras modificações do vestuário, que naturalmente escaparam aos olhos do moço, era a cópia viva do quadro, que lhe aparecera à borda do caminho, oito dias antes. A moldura sim, era diferente; os florões dourados dos corimbos da aroeira foram substituídos pela negra e musgosa cercadura do rochedo.
Os olhos de Guida e Ricardo se encontraram.
Reconhecendo-a, o moço envolveu-a com o olhar, um desses olhares ardentes e profundos, que embebem em si os objetos, como um molde, para depois vazá-los dentro d’alma. Olhar de poeta ou de artista, que esculpe na memória estátuas, os relevos e arabescos da natureza; donde os copia depois a imaginação em poemas, em harmonias, em raios de luz. Esse olhar tem alguma coisa do cinzel que talha, e da lava ardente que se coalha e vitrifica sobre os objetos. Guida, que trazia nos lábios o sorriso gracioso, perturbou-se, e desviou a vista corando. Pareceu-lhe descobrir naquela expressão estranha do olhar de Ricardo uma exprobração pela cena do domingo anterior.
Conhecendo que tinha vexado a moça, Ricardo arrependeu-se do seu movimento de curiosidade artística. Da última vez que estivera na Tijuca desenhara de memória a cena do seu primeiro encontro com Guida; julgou porém impossível dar à figura da moça os traços da fisionomia encantadora, que ele apenas vira tão de relance. Oferecendose essa ocasião de ver Guida de mais perto e demoradamente, quis decorar-lhe as feições.
A delicadeza d’alma do advogado compreendera o acanhamento da moça, embora o atribuísse a causa diferente. Por isso cuidou em afastar-se dali. Fazendo o “Galgo” voltar sobre os pés, cortejou de longe e subiu na direção da Floresta.
Durante esta rápida cena, Mrs. Trowshy, enlevada diante da cascata, não cessava de expandir a sua admiração em exclamações patéticas, semelhantes às que lhe ouvimos em princípio. A poética imaginação da inglesa quis infundir um raio do seu entusiasmo no companheiro, o nosso conhecido Sr. Daniel; mas perdeu seu tempo: o português era feito de músculo e osso; por conseguinte impenetrável à poesia, como um capote de borracha é impenetrável á água.
Foi no momento de afastar-se, que a inglesa reparou no moço:
- Este não é o sujeito que ia matando Sofia? perguntou em inglês.
- Creio que é!
- Que monstro! exclamou Mrs. Trowshy, com o horror que lhe inspiraria um tigre.
- Ele não teve culpa. Depois é que vi; podia o cavalo atirar-se no despenhadeiro.
- Era bem feito; para que anda em um cavalo tão fogoso?
- Mas é muito bonito! Não acha, Mrs. Trowshy?
- Oh! Não tem comparação com “Edgard”!
- “Edgard” é um cavalo de preço, um cavalo de raça; tem a estampa mais vistosa e elegante; porém acho o outro mais bonito! Olhe a graça dos movimentos. Como é vivo e faceiro! Como brinca! Está-se vendo a alegria nos seus olhos, e no garbo com que move o pescoço.
Guida falava seguindo com o olhar o “Galgo” que subia o primeiro lanço da escada.
(continua...)
ALENCAR, José de. Sonhos d’Ouro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1849 . Acesso em: 27 jan. 2026.