Por José de Alencar (1875)
Proferindo estas palavras o mancebo cingiu os rins do velho com os braços e carregou-o aos ombros por um largo trato até dentro da mata e o pousou em uma cepa de gameleira.
Tornou então atrás, cortou uma palma de carnaúba que esgarçou com a faca, e entrou na cabana, onde apagou os rastos que aí tinham deixado seus passos.
Para conseguí-lo, sassara a poeira, prurindo sutilmente o chão com os folíolos da palha verde, de modo que a terra parecia intacta de qualquer vestígio e apenas ao de leve frisada pelo sôpro da viração.
Concluída a tarefa dentro, saíu fora, andando sempre de costas e expungindo do caminho pelo mesmo processo não somente o rasto que agora ia deixando, como os anteriores.
Chegou assim ao sítio onde ficara o velho, o qual em completa contradição com a sua tenacidade recente, deixava-se conduzir como uma criança dócil e submissa.
Carregou-o outra vez Arnaldo aos ombros, e desta vez levou-o até um bamburral espêsso e impenetrável, que embrenhava as fragas alcantiladas de um grupo de penhascos.
Mergulhando por baixo dessa espessura, em um ponto onde mais fechada se mostrava, o sertanejo surdiu ao cabo de algumas braças em uma fenda de rochedo, que formava a bôca de uma gruta.
A poucos passos, achou-se em uma cripta aberta na rocha viva, e que recebia a claridade de estreitas fisgas da lapa côncava que lhe servia de abóbada.
O sertanejo triscou fogo e acendeu um rôlo de cera amarela guardado numa grêta da pedra.
A um canto via-se no chão a cama feita de um couro de boi em cabelo, servindo-lhe de cabeceira a armação dos chifres do mesmo animal presos à caveira.
Da parede granítica da caverna pendia uma canastrinha também de couro de boi em cabelo, como ainda hoje se usam no sertão, e chamam-se bruacas.
— Aí está a cama, e aquí dentro as provisões, disse Arnaldo. Prometes não sair dêste retiro enquanto não passar o perigo, Jó?
— Vai em paz, filho. Estou bem aquí; e como não estaria, se essa é já meia sepultura, que me começa a enterrar em vida? Guarde-te Deus!
Arnaldo não se demorou na gruta senão o tempo necessário para instalar o novo habitante dêsse eremitério. Uma vez fora, desandou o caminho percorrido, desvanecendo todo o indício de sua passagem até o ponto onde havia deixado o seu cavalo, que o esperava sem nenhuma impaciência, remoendo um abrôlho mais novo de mandacarú.
Cavalgou e afastou-se, não deixando após si o mínimo traço de sua ida à choça do velho Jó. Se alguém se lembrasse de rasteá-lo, não descobriria senão que passara a cavalo pela várzea na direção das vertentes.
— Amanhã nos entenderemos, Aleixo Vargas; disse entre si o moço sertanejo.
E buscou no recôndito da floresta a sua malhada favorita. Era esta um jacarandá colossal, cuja copa majestosa bojava sôbre a cúpula da selva como a abóbada de um zimbrório.
Alí costumava o sertanejo passar a noite ao relento, conversando com as estrêlas, e a alma a correr por êsses sertões das nuvens, como durante o dia vagava êle pelos sertões da terra.
É êste um dos traços do sertanejo cearense; gosta de dormir ao sereno, em céu aberto, sob essa cúpula de azul marchetado de diamantes, como não a têm nos mais suntuosos palácios.
Aí, no meio da natureza, sem muros ou tetos que se interponham entre êle e o infinito, é como se repousasse no puro regaço da mãe pátria, acariciando pela graça de Deus, que lhe sorrí na luz esplêndida dessas cascatas de estrêlas.
Arnaldo desaparelhara o animal que também tratou de buscar a sua guarida. Os arreios e a maca de pelego foram guardados na bifurcação dos galhos do jacarandá, enquanto o viajante encostado ao tronco fazia uma tão rápida como sóbria refeição.
Compunha-se esta de uma naca de carne de vento e alguns punhados de farinha, que trazia no alforge. De postres um pedaço de rapadura, regado com água da borracha. Era noite cerrada.
VI – A malhada
Nos últimos ramos, lá no tope do jacarandá, havia o sertanejo armado a rede, em que se embalava.
Devia de achar-se mais de cem pés acima da terra; e nessa grande altura, suspenso por duas finas cordas de algodão trançado, estava mais tranquilo do que se pousasse no chão, onde o poderiam incomodar a má companhia dos répteis e a visita de alguma fera.
Alí, em seu pavilhão de verdura, grimpado nos ares, não tinha outros vizinhos além de uma jurití, que fabricara o ninho no próximo galho, e acabava de ruflar as asas à sua chegada para darlhe a boa-noite.
(continua...)
ALENCAR, José de. O Sertanejo. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1848 . Acesso em: 27 jan. 2026.