Por José de Alencar (1857)
— E que pensas tu?
— Já vos disse que não vejo as coisas tão negras como vós, Sr. D. Antônio. Os índios vos respeitam, vos temem, e não se animarão a atacar-vos.
— Digo-te que te enganas, ou antes que procuras enganar-me.
— Não sou capaz de tal, sr. cavalheiro!
— Conheces tão bem como eu, Aires, o caráter desses selvagens; sabes que a sua paixão dominante é a vingança, e que por ela sacrificam tudo, a vida e a liberdade.
— Não desconheço isto, respondeu o escudeiro.
— Eles me temem, dizes tu; mas desde o momento em que se julgarem ofendidos por mim, sofrerão tudo para vingar-se
— Tendes mais experiência do que eu, sr. cavalheiro; mas queira Deus que vos enganeis.
Voltando-se na beira da esplanada para continuarem o seu passeio, D. Antônio de Mariz e o seu escudeiro viram um moço cavaleiro que atravessava pela frente da casa.
— Deixa-me, disse o fidalgo a Aires Gomes; e pensa no que te disse; em todo o caso que estejamos preparados para recebê-los.
— Se vierem! retrucou o teimoso escudeiro afastando-se.
D. Antônio dirigiu-se lentamente para o moço fidalgo que se havia sentado a alguns passos. Vendo aproximar-se seu pai, D. Diogo de Mariz ergueu-se e descobrindo-se esperou-o numa atitude respeitosa.
— Sr. cavalheiro, disse o velho com um ar severo, infringistes ontem as ordens que vos dei.
— Senhor...
— Apesar das minhas recomendações expressas, ofendestes um desses selvagens e excitastes contra nós a sua vingança. Pusestes em risco a vida de vosso pai, de vossa mãe e de homens dedicados. Deveis estar satisfeito de vossa obra.
— Meu pai!...
— Cometestes uma ação má assassinando uma mulher, uma ação indigna do nome que vos dei; isto mostra que ainda não sabeis fazer uso da espada que trazeis à cinta.
— Não mereço esta injúria, senhor! Castigai-me, mas não rebaixeis vosso filho.
— Não é vosso pai que vos rebaixa, sr. cavalheiro, e sim a ação que praticastes. Não vos quero envergonhar, tirando essa arma que vos dei para combater pelo vosso rei; mas como ainda não vos sabeis servir dela, proíbo-vos que a tireis da bainha ainda que seja para defender a vossa vida.
D. Diogo inclinou-se em sinal de obediência.
— Partireis brevemente, apenas chegar a expedição do Rio de Janeiro; e ireis pedir a Diogo Botelho que vos dê serviço nas descobertas. Sois português, e deveis guardar fidelidade ao vosso rei legitimo; mas combatereis como fidalgo e cristão em prol da religião, conquistando ao gentio esta terra que um dia voltará ao domínio de Portugal livre.
— Cumprirei as vossas ordens, meu pai.
— Daqui até então, continuou o velho fidalgo, não arredareis pé desta casa sem minha ordem. Ide, sr. cavalheiro; lembrai-vos que tenho sessenta anos, e que vossa mãe e vossa irmã breve carecerão de um braço valente para defendê-las, e de um conselho avisado para protegê-las.
O moço sentiu as lágrimas borbulharem nos olhos, mas não balbuciou uma palavra; curvou-se e beijou respeitosamente a mão de seu pai.
D. Antônio de Mariz, depois de olhá-lo um momento com uma severidade sob a qual transpareciam os assomos do amor de pai, voltou pelo mesmo caminho e ia continuar o seu passeio quando sua mulher apareceu na soleira da porta.
D. Lauriana era uma senhora de cinqüenta e cinco anos; magra, mas forte e conservada como seu marido; tinha ainda os cabelos pretos matizados por alguns fios brancos que escondia o seu alto penteado, coroado por um desses antigos pentes tão largos que cingiam toda a cabeça, e fingiam uma espécie de diadema.
Seu vestido de lapim cor de fumo, de cintura comprida, um pouco curto na frente, tinha uma cauda respeitável, que ela arrastava com um certo donaire de fidalga, resto de sua beleza, há muito perdida. Longas arrecadas de ouro com pingentes de esmeralda, que lhe rogavam quase os ombros, e um colar com uma cruz de ouro ao pescoço, eram todos os seus ornatos. Quanto ao moral, já dissemos que era uma mistura de fidalguia e devoção; o espírito de nobreza que em D. Antônio de Mariz era um realce, nela tornava-se uma ridícula exageração.
No ermo em que se achava, em lugar de procurar desvanecer um pouco a distinção social que podia haver entre ela e os homens no meio dos quais vivia, ao contrário, aproveitava o fato de ser a única dama fidalga daquele lugar para esmagar os outros com a sua superioridade, e reinar do alto de sua cadeira de espaldar, que para ela era quase um trono.
(continua...)
ALENCAR, José de. O Guarani. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1842 . Acesso em: 26 jan. 2026.