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#Romances#Literatura Brasileira

Garatuja

Por José de Alencar (1873)

E a Rosalina esfregou as mãos de contente. 

 

IX 

 

PROVA-SE A BOA RAZÃO QUE TEVE CAMÕES ENTRELAÇANDO 

A MITOLOGIA COM O CATOLICISMO 

 

Que era feito do painel? 

Ivo teve ímpetos de pedir à madrinha novas dele; mas arrependeu-se. 

Entretanto ninguém lhas podia dar tão cabais; pois fora ela com sua mão quem o tirara do cavalete, onde o deixara o rapaz, enquanto corria à tenda à cata do ingrediente para a iluminação. Esta ligeireza da Rosalina carece de explicação. 

De muito ruminava a antiga noiva do alferes nos modos de arranjar uma entrada com a Sr.ª Romana Mência, geralmente conhecida entre os garotos da cidade pelo expressivo apelido de matrona, que lhe valera sua muita severidade com as fraquezas do próximo. 

Ora, a crônica dos amores da Rosalina e o episódio do enjeitado, apesar dos vinte anos decorridos, ainda estavam bem vivos na memória da matrona; e tanto bastou para que se baldassem todas as investidas da mãe do Ivo. 

Mas não desacoroçoou a Rosalina; e cada vez mais se ocupou do modo de insinuar-se na casa da Romana. Carecia disso, não só para satisfação de seu amor-próprio ofendido, como para ajeitar a proteção de tão boa madrinha em favor do seu Ivo. 

A Sr.ª Romana Mência era sogra do tabelião, e esse bem podia admitir no seu cartório o rapaz, encarreirando-o em sua profissão das melhores naquela época; pois era nos cartórios e nos conventos que se formavam então os homens para o manejo dos negócios da república; da mesma forma que hoje se fazem os estadistas nas tricas das secretarias, e nas alicantinas e rabulices do foro. 

Na ocasião em que Ivo, fechando a porta da câmara, espirrou pelo corredor como um foguete à busca da tenda, a mãe que o viu tão pressuroso quanto refolhado, teve uns assomos de saber o que estava fazendo o rapaz. Empurrou a porta e achou-a fechada. Mais se lhe acendeu a curiosidade; rodeando pelo quintal bispou da janela o painel, que estava bem à mostra no meio do aposento. 

— Ai!... exclamou alvoroçada. Que Menino Jesus tão lindo, Senhor Deus!... 

De repente entrou-a um pensamento, que a pôs em faísca. Lembrara-lhe que a Romana Mência era uma devota, como não havia outra, perdida por tudo quanto era santo e cousa de beatice. 

Recobrando a sua agilidade, do tempo do alferes, quando tantas vezes saltara essa mesma janela para ir-lhe ao encontro na cerca, por trás da atafona, a Rosalina com algum esforço conseguiu apoderar-se do painel, e cosendo-se com ele dentro da mantilha acatassolada, deitou-se de um fôlego para a casa da matrona. 

Esta não se achava só, mas concertando com a nora e mais a Engrácia, uma das vizinhas, a novena daquela noite. Vendo entrar pela casa, e sem licença, a Rosalina, as duas se admiraram; mas a velha inquizilou-se ao sério. 

— Quem a chamou cá, mulher? 

— Com perdão de Vossa Mercê, Sr.ª Romana, pela confiança de entrar assim na casa alheia, sem pedir licença; mas como é para bem!... 

— Isso é que está por ver, que seja para bem, redargüiu a voz fanhosa da velha.

— Ai! era preciso que não fosse devota do Menino Jesus!

— A que vem isso agora? 

— É ou não é? 

— Se doutro modo não se vai e me deixa descansada, digo-lhe, senhora abelhuda, que sou e torno a ser. Agora musque-se! 

— Pois então, exclamou a Rosalina, desenrolando a mantilha com ar de triunfo, recreie esses olhos em sua benta imagem. 

Com um gesto patético apresentou o painel. 

A Miquelina e a Engrácia caíram logo em êxtase diante da pintura; mas a velha desconfiada e prevenida levou algum tempo a firmar a vista, e compenetrar-se bem do que olhava. Então não se pôde conter e, pondo as mãos, entrou por sua vez em adoração. 

Passado aquêle primeiro enlevo contemplativo, cobraram as três a fala, e com a Rosalina fizeram um perfeito quarteto de tagarelice. 

— Onde achou esse retábulo, mulher? perguntou Romana. 

— Foi o Ivo, o meu enjeitadinho que pintou! respondeu a Rosalina cheia de si.

— Que me diz? Pois ele é capaz! 

— Oh! tem uma habilidade, que é cousa por maior; o Belmiro não pode com ele. 

— Há de trazê-lo cá. Em o vendo, logo conheço se é verdade. 

— A senhora pode experimentar. 

— Deixe estar que ninguém me logra. 

A esse tempo travara-se entre a Miquelina e a Engrácia renhida disputa a respeito do painel. 

— Mas, senhora, dizia a Miquelina, está-me catucando cá dentro que este não é o Menino Jesus! 

— Quem há de ser então? O Arcanjo São Miguel? 

— Também não. Quem diz que este painel é de devoção? A mim está-me parecendo pintura de pouca vergonha! 

— Jesus! Que blasfêmia! Pois não está vendo as asas de querubim? 

(continua...)

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