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#Comédias#Literatura Brasileira

As Asas de um Anjo

Por José de Alencar (1860)

Vieirinha – Mau! A história começa a enternecer-me.

Meneses – É bem interessante.

Carolina – Mas falta-lhe o fim.

Meneses – Ah! Tem um fim?

Ribeiro – Carolina!

Carolina – Essa moça... Os senhores desejam conhecê-la?

Vieirinha – Decerto.

Carolina – Sou eu!

Pinheiro – A senhora!

Luís (a Araújo) – Está perdida.

Carolina – Sou eu: e espero que chegue o dia em que possas pagar o sacrifício desse amor tão generoso, que desprezei.

Pinheiro – Mas seu primo?...

Carolina – Já o não é.

Meneses – Como se chama?

Carolina – Não sei.

Araújo – José, dá-me a conta.

Meneses – Espera, vamos juntos.

Araújo – Ainda te demoras!

Meneses – Não.

CENA VIII

(Os mesmos, José e Antônio)

José (na porta) – Ponha-se na rua! Não achou outro lugar para cozinhar a bebedeira?

Antônio (da parte de fora) – Quero beber... Vinho... compro com o meu dinheiro. Eh!

Meia garrafa, senhor moço!

José – Vá-se embora, já lhe disse.

Meneses – Que barulho é este, José?

José – É um bêbado. Achou a porta aberta e entrou. Agora quer por força que lhe venda meia garrafa de vinho.

Araújo – Pois mata-lhe a sede.

José – Se ele já está caindo.

Antônio (cantando) – Mandei fazer um balaio Da casquinha de um camarão

José – Nada! Ponha-se no andar da rua.

Carolina – Deixe-o entrar; talvez nos divirta um pouco. Estou triste.

José – Mas é capaz de quebrar-me a louça.

Pinheiro – Que tem isso? Eu pago o que ele quiser.

Carolina – É uma fineza que lhe devo.

Ribeiro – Mas não é necessária; tu podes satisfazer a teus caprichos sem recorrer a ninguém.

Antônio – Oh! temos bródio por cá também? Viva a alegria! Toca música! Ta-ra, lalá, ta-ri, to-ri (dança).

Meneses – O homem é diletante como o Vieirinha.

Vieirinha – E engraçado como um artigo teu.

Antônio – Estão rindo?... Cuidado que estou meio lá meio cá.

Meneses – Não; faz tanto barulho que vê-se logo que está todo cá.

Antônio – Pois olhe, apenas bebi seis garrafas.

Vieirinha – Não é muito!

Antônio – Não é, não. Mas faltavam-lhe os cobres, senão... Oh! Tanto hei de beber que por fim hei de achar.

Meneses – Achar o quê?

Antônio – Não sabe? Upa!... Pois não sabe?... Eu não bebo porque goste de vinho... Já me enjoa.

Meneses – Por que bebe então?

Antônio – Porque procurôôô... eh! Iô... procuro no fundo da garrafa uma coisa que os velhos chamam virtude, e que não se acha mais nesse mundo.

Pinheiro – Eis um Diógenes!...

Helena – Como te chamas?

Antônio – Que te importa o meu nome? Não tenho dinheiro!

Araújo – (a Luís, baixo) – Luís! Luís! Olha!

Luís – O quê?

Araújo – Este homem.

Luís – Antônio!...

Araújo – Cala-te!

Meneses – Mas então ainda não achou o que procuravas?

Antônio – Hein?...

Meneses – A virtude...

Antônio – Não existe. No fundo da garrafa só acho o sono. Mas é bom o sono. A gente não se lembra...

Vieirinha – Das maroteiras que fez.

Antônio – A gente vive no outro mundo que não é ruim como este. Oh! é bom o vinho!

Vieirinha – Pois tome lá este copo de champagne.

Antônio – Venha! (Provando) Puah!... não presta! É doce como as falas de certa gente; embrulha-me o estômago! Antes a aguardente que queima!

Meneses – Chegue aqui; diga-me o que você procura esquecer. Sofreu alguma desgraça?

Vieirinha – Queres outra história?

Antônio – Qual história? Não sofri nada! Diverti os outros.

Meneses – Mas conte isso mesmo.

Antônio – Não tem que contar... O trabalhador não deve criar sua filha para os moços da moda?

Meneses – Então sua filha...

(continua...)

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