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#Comédias#Literatura Brasileira

Uma Pupila Rica

Por Joaquim Manuel de Macedo (1840)

Júlia é apenas uma menina leviana que brinca: hoje há aqui alguém que muito mais nos incomoda: eu sou franco; é o filho do barão... e Teófilo...

Carlos Que queres dizer? Peregr. Veio, entrou-nos em casa com aparência de pretendente de Júlia, e evidentemente é de Corina que ele se ocupa... e ela o atende... e parece encantada...

Carlos Seu proveito... talvez não me tenha sido agradável essa observação que também já fiz... talvez mesmo tenha isso concorrido para impacientar-me; porque eu amo Corina, ouviste?... mas se ela ama Teófilo... que seja feliz.

Peregr.

Eis aí: eu não amo Corina, e todavia não sou tão tolerante. Teófilo me aflige muito.

Carlos Mas... se dizes que não amas... Pereg. Não é dizer que eu não queira casar com ela: o seu dote arranjaria muito a minha vida; confesso.

Carlos Peregrino!

Pereg.

Não ralhes como ralhaste no caso do negócio de escravos: cada qual tem seus princípios. Eu quero Corina para esposa, mesmo sem amor e até muito contra sua vontade: apontar-me-ão nas ruas com reprovação... dirão que sacrifiquei o coração ao ouro; mas sendo rico, serei poderoso, e a sociedade virá em breve lisonjear-me respeitosa.

Carlos Essa teoria é infame!

Pereg.

Dá-lhe o nome que quiseres: faço-te justiça: tu, meu poeta, não quererias ser esposo não sendo amado; hesitarás, mesmo na hipótese de merecer amor, ante a suspeita de vil interesseiro, que em todo o caso despertarias no ânimo dos maliciosos.

Carlos E levantaria ufano esta cabeça de homem honesto...

Pereg.

Cabeça de poeta... pois bem, cada qual com os seus princípios... e daí quem sabe, se não és ainda mais ladino do que eu?... Desejo, aconselho-te que o sejas: se Corina não for minha esposa, estimarei que seja tua.

Carlos Não quero que me imagines com os teus sentimentos: vai comprar e vender homens...

Peregr.

Olha... acabou o jogo de prendas... estão tomando sorvetes... vamos arrefecer o sangue... (vai-se. Carlos passeia agitado)

Cena 2ª

Carlos e Teodora Teod. Por que fugiste da sala? Não devias dar importância aos gracejos de tua irmã.

Carlos Minha mãe, cumpre-me preveni-la de que vou sufocar o amor que sentia ou sinto por Corina.

Teod.

Temos ciúmes? Não sejas criança.

Carlos Juro-lhe que só desposarei Corina, se partir dela manifesta e publicamente a proposição mais livre e positiva.

Teod.

Mas isso é contra todas as regras, seria até indecoroso.

Carlos Ou eu farei a proposição franca e altamente com a condição de passar todo o seu dote para algum estabelecimento de caridade. (em fogo mal contido)

Teod.

Estás delirando... agora não podemos conversar. Vai distrair-te e sossega. (vai-se Carlos)

Cena 3ª

Teodora que se retira, Estefânia e Corina, tomando sorvete

Estef. Roubei por momentos Corina a seus admiradores.

Teod.

Fazes-me ter ciúmes desta menina que parece amar-te mais do que a mim: não me roube de todo o seu coração.(vaise)

Estef. Vê como é hipócrita?... Toma-se, [sic] acautele-se dela! Não atraiçoe o segredo que lhe confiei... diga pelo contrário, queixando-se de mim, que empenhei-me em induzi-la a desposar Carlos... mas, eu lho peço, ouça ao menos por breves momentos a meu sobrinho... prometa-me uma contradança para Fortunato.

Corina Mas eu já prometi a outro a seguinte... e além disso...

Estef. Fortunato a ama... livra-la-á do inferno em que vive... creia que a senhora está exposta aos maiores perigos, e meu sobrinho que é o mais nobre cavalheiro, que a adora, e que daria a vida pelo seu amor...

Corina Olhe, quanta gente chega.

Cena 4ª

Carlos, Peregrino, Simão de Souza, Tomás Pereira, Teófilo, Firmino, Fortunato, Estefânia, Corina, Teodora, Júlia, senhoras, cavalheiros — conversação geral, movimento.

Teóf.

(com a boneca nos braços) A minha linda afilhadinha não pode dormir com semelhante ruído! Acabou de despertar chorando assustada... onde melhor lhe poremos o berço? (embala a boneca) Tempo perdido! Nos meus braços não dorme: (a Corina) minha senhora, por quem é, acalente esta menina.

Corina Compete esse dever à madrinha.

Teóf.

A madrinha está carregando o berço... e que pesa!...

Estef. Que feliz [sic] boneca! (Corina recebe-a e acalenta-a)

(continua...)

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