Por Euclides da Cunha (1909)
São, de fato, "as terras caídas", das quais resultam sempre duas sortes de obstáculos: de um lado o inextricável acervo de galhadas e troncos, que se entrecruzam à superfície d’água, ou irrompem em pontas ameaçadoras, do fundo; e de outro as massas argilosas, ou argilo-arenosas que a corrente pouco veloz não dissolve, permitindo-lhes acumularem-se nas minúsculas ilhotas dos "torrões", ou, mais prejudiciais, nos rasos bancos compactos dos "salões", impropriando a passagem aos mais diminutos calados.
Não precisamos insistir neste fato.
A sua gravidade é intuitiva. E considerando-se que ele se reproduz em toda a extensão de 480 quilômetros, que vai da embocadura ao Iaco à do Curiuja, onde se acumulam cada vez mais aqueles entraves, indefinidamente crescentes, chega-se a concluir que o Purus, depois de haver conseguido um dos mais regulares perfis de toda a hidrografia e de aparelhar-se com os melhores elementos predispostos a uma rara fixidez de regime, erigindo-se modelo admirável entre as caudais mais bem talhadas à grande navegação - está, agora, a pouco e pouco perdendo a maior parte dos seus requisitos superiores, com o progredir de um atravancamento em larga escala, que o tornará mais tarde inteiramente impenetrável.
Dizemo-lo baseando-nos em penosa experiência culminada por um naufrágio. Sobretudo além da embocadura do Chandless, multiplicam-se tanto estes empecilhos de todo estranhos à "tectônica" especial do rio, que em longos "estirões", com a profundidade média de cinco a seis pés, nas vazantes, onde passariam carregadas as mais poderosas lanchas, mal pode deslizar uma montaria ligeira. Escusamo-nos de exemplificar alongando estas considerações ligeiras. Notemos apenas que a partir do tributário pre citado até a bifurcação Cujar-Curiuja, o Purus em vários lugares parece correr por cima de uma antiga derrubada. Vai-se como entre os galhos estonados e revoltos de uma floresta morta. E se observarmos que, além dos empeços em si mesmas encerrados, estas tranqueiras, rebalsando as águas que se filtram entre os ramos unidos, facilitam a formação de toda a sorte de baixios, compreender-se-á em toda a sua latitude o procedimento contínuo dessa obstrução prejudicialíssima.
Porque os homens que ali mourejam - o caucheiro peruano com as suas tanganas rijas, nas montarias velozes, o nosso seringueiro, com os varejões que lhe impulsionam as ubás, ou o regatão de todas as pátrias que por ali mercadeja nas ronceiras alvarengas arrastadas à sirga - nunca intervêm para melhorar a sua única e magnífica estrada; passam e repassam nas paragens perigosas; esbarram mil vezes a canoa num tronco caído há dez anos junto à beira de um canal; insinuam-se mil vezes com as maiores dificuldades numa ramagem revolta barrando-lhes de lado a lado o caminho, encalham e arrastam penosamente as canoas sobre os mesmos "salões" de argila endurecida; vezes sem conta arriscam-se ao naufrágio, precipitando, ao som das águas, as ubás contra as pontas duríssimas dos troncos que se enristam invisíveis, submersos de um palmo - mas não despendem o mínimo esforço e não despedem um golpe único de facão ou de machado num só daqueles paus, para desafogar a travessia.
As lanchas, e até os vapores, que ali vão aparecendo mais a miúdo, à medida que avultam as safras dos cento e vinte opulentos seringais que já se abriram acima da confluência do Iaco, viajam, invariavelmente, nas quadras favoráveis das cheias, quando aqueles entraves se afogam em alguns metros de fundo.
Sobem, velozes, o rio; descarregam, precipitadamente, em vários pontos as mercadorias consignadas; carregam-se de borracha; e tornam logo, precípites, águas abaixo, fugindo. Apesar disto, algumas não se forram a repentinas descidas de nível, prendendo-as. E lá se ficam, longos meses — esperando a outra enchente, ou o inesperado de um "repiquete" propício, invernando paradoxalmente sob as soalheiras caniculares — nas mais curiosas situações: ora em pleno rio, agarradas pelos centenares de braços das árvores secas, que as imobilizam; ora a meio da barranca, onde as surpreendeu a vazante, grosseiramente especadas, encombentes, com as proas afocinhando, inclinadas, em riscos permanentes de queda; ora no alto de uma barreira, como autênticos navios-fantasmas, aparecendo, de improviso e surpreendedoramente, em plena entrada da mata majestosa.
O contraste desta navegação com as admiráveis condições técnicas imanentes ao rio é flagrante. O Purus — e como ele todos os tributários meridionais do Amazonas, à parte o Madeira — está inteiramente abandonado.
Entretanto o simples enunciado destes inconvenientes, evidentemente alheios às suas admiráveis condições estruturais, delata que a remoção deles, embora demorada, não demanda trabalhos excepcionais de engenharia e excepcionais dispêndios.
O que resta fazer, ao homem, é rudimentar e simples.
Os grandes, os sérios problemas de hidráulica fluvial que ali houve, resolveuos o próprio rio agindo no jogo harmonioso das forças naturais que o modelaram.
(continua...)
CUNHA, Euclides da. À Margem da História. 1909. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16624. Acesso em: 17 jun. 2026.