Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF




?
Busca avançada
Compartilhar Reportar
#Romances#Literatura Brasileira

O triste fim de Policarpo Quaresma

Por Lima Barreto (1915)

Muito ativa, muito diligente, não havia dona-de-casa mais econômica, mais poupada e que fizesse render mais o dinheiro do marido e o serviço das criadas. Logo que despertou, pôs tudo em atividade, as criadas e as filhas. Vivi e Quinota foram para os doces; Lalá e Zizi auxiliaram as raparigas na arrumação das salas e dos quartos, enquanto ela e Ismênia iam arrumar a mesa, dispôla com muito gosto e esplendor. O móvel ficaria assim galhardo desde as primeiras horas do dia. A alegria de Dona Maricota era grande; ela não compreendia que uma mulher pudesse viver sem estar casada. Não eram só os perigos a que se achava exposta, a falta de arrimo; parecia-lhe feio e desonroso para a família. A sua satisfação não vinha do simples fato de ter descontado uma letra, como ela dizia. Vinha mais profundamente dos seus sentimentos maternos e de família.

Ela arrumava a mesa, nervosa e alegre; e a filha fria e indiferente.

- Mas, minha filha, dizia ela, até parece que não é você quem se vai casar! Que cara! Você parece aí uma “mosca-morta”.

- Mamãe, que quer que eu faça?

- Não é bonito rir-se muito, andar aí como uma sirigaita, mas também assim como você está! Eu nunca vi noiva assim.

Durante uma hora, a moça esforçou-se por parecer muito alegre, mas logo lhe tornava toda a pobreza de sua natureza, incapaz de vibração sentimental, e o natural do seu temperamento venciaa e não tardava em cair naquela doentia lassidão que lhe era própria.

Veio muita gente. Além das moças e as respeitáveis mães, acudiram ao convite do general o

Contra-Almirante Caldas, o Doutor Florêncio, engenheiro das Águas, o Major honorário Inocêncio Bustamante, o Senhor Bastos, guarda-livros, ainda parente de Dona Maricota, e outras pessoas importantes. Ricardo não fora convidado porque o general temia a opinião pública sobre a presença dele em festa séria; Quaresma o fora, mas não viera; e Cavalcanti jantara com os futuros sogros. Às seis horas, a casa já estava cheia. As moças cercavam Ismênia, cumprimentando-a, não sem um pouco de inveja no olhar.

Irene, uma alourada e alta, aconselhava:

- Eu, se fosse você, comprava tudo no Parque.

Tratava-se do enxoval. Todas elas, embora solteiras, davam conselhos, sabiam as casas barateiras, as peças mais importantes e as que podiam ser dispensadas. Estavam a par.

A Armanda indicava com um requebro feiticeiro nos olhos:

- Eu, ontem, vi na Rua da Constituição um dormitório de casal, muito bonito, você por que não vai ver, Ismênia? Parece barato.

A Ismênia era a menos entusiasmada, quase não respondia às perguntas; e, se as respondia, era por monossílabos. Houve um momento em que sorriu quase com alegria e abandono. Estefânia, a doutora, normalista, que tinha nos dedos um anel, com tantas pedras que nem uma joalheria, num dado momento, chegou a boca carnuda aos ouvidos da noiva e fez uma confidência. Quando deixou de segredar-lhe assim como se quisesse confirmar o dito, dilatou muito os seus olhos maliciosos e quentes, e disse alto:

- Eu quero ver isso... Todas dizem que não... Eu sei...

Ela aludia à resposta que, à sua confidência, Ismênia tinha dado com parcimônia: qual o quê! Todas elas, conversando, tinham os olhos no piano. Os rapazes e uma parte dos velhos rodeavam Cavalcanti, muito solene, dentro de um grande fraque preto.

- Então, Doutor, acabou, hein? dizia este a jeito de um cumprimento.

- É verdade! Trabalhei. Os senhores não imaginam os tropeços, os embargos - fui de um heroísmo!...

- Conhece o Chavantes? perguntava um outro.

- Conheço. Um crônico, um pândego...

- Foi seu colega?

- Foi, isto é, ele é do curso de Medicina. Matriculamo-nos no mesmo ano.

Cavalcanti ainda não tinha tido tempo de atender a este e já era obrigado a ouvir a observação de outro.

- É muito bonito ser formado. Se eu tivesse ouvido meu pai, não estava agora a quebrar a cabeça no Deve e Haver. Hoje, torço a orelha e não sai sangue.

- Atualmente, não vale nada, meu caro senhor, dizia modestamente Cavalcanti. Com essas academias livres... Imaginem que já se fala numa Academia Livre de Odontologia! É o cúmulo! Um curso difícil e caro, que exige cadáveres, aparelhos, bons professores, como é que particulares poderão mantê-lo? Se o governo mantém mal...

- Pois doutor, acudia um outro, dou-lhe meus parabéns. Digo-lhe o que disse ao meu sobrinho, quando se formou: vá furando!

- Ah! Seu sobrinho é formado? inquiria delicadamente Cavalcanti.

- Em engenharia. Está no Maranhão, na Estrada de Caxias.

- Boa carreira.

Nos intervalos da conversa, todos eles olhavam o novel dentista como se fosse um ente sobrenatural.

(continua...)

« Primeiro‹ Anterior...1112131415...Próximo ›Último »
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →