Por Lima Barreto (1905)
— Como não? como não se há de aborrecer a “considerada” condessa, com a piedade da mais ínfima gente da terra toda?
— Oh! Alda!...
— E por que isso? Porque é bonita mulher de um funcionário secundário, que a abandona e se embriaga.
Entretanto, essa bela mulher não o ama, não se casou com ele; e tem por esse indivíduo a piedade que envolve também os vermes. Supõem-me amá-lo, ah! nem sabem...
— Sossega, Alda. Não vês que também eu desmereci da honra de freqüentar a mais bela corte do orbe, e a glória de emular com os Racine e os Corneille? Os dois sacrifícios se eqüivalem, Alda.
— Oh! Jean. Não compares. Ninguém se apieda de ti. Ninguém se lembrou ainda de te pôr doces alcunhas.
Nesta cidade, sou a GARÇA, a D. GARÇA, como me chegam a chamar familiarmente; e quando o poviléu põe alcunhas meigas é porque sente muita desgraça no alcunhado, Jean.
— Espera... Alda. De volta da missão que vou pregar, voltarei à Europa; e lá, então, serás restabelecida na tua posição.
— Nunca mais. Nunca. Aqui enxovalhei-me.
O diálogo, depois de impetuoso, tinha, aos poucos, baixado de tom, e seguiram-se a estas palavras pequenas frases explicativas, que o clérigo rematou, aconselhando:
— Dorme; sossega; pensa melhor, Alda.
— Tu te vais? inquiriu com espanto a condessa, vendo o padre acender a lanterna.
— Vou. Há capítulos. Adeus, D. Garça; ama-me sempre.
— Adeus, Jean.
E os dois beijaram-se por longo tempo.
A condessa, logo que o clérigo saiu, ajoelhou-se ao oratório e, imperceptivelmente, disse:
— Graças a ti, minha Nossa Senhora. Graças! Ele vem.
(Continua)
Correio da Manhã - domingo, 14 de maio de 1905
OS SUBTERRÂNEOS DO RIO DE JANEIRO
O Tesouro dos Jesuítas
D. Garça
II
Os Tesouros
O padre João de Jouquières, irmão professo de quatro votos da Companhia de Jesus, antes de penetrar a estreita porta do subterrâneo, murmurou em voz quase imperceptível algumas palavras à escrava, em seguida ao que, tomou o seu rumo, demandando o salão dos capítulos secretos.
Já alcançava o grande conduto oeste das galerias do Colégio.
Seus passos na crasta lajeada ressoavam lugubremente. Marchava vagaroso. Um pensamento tenaz e sombrio retardava o seu andar. De onde em onde parava, fazia como quem quer voltar; e, após freqüentes hesitações, penetrou na grande galeria em circunferência. Quatro salas, esquarteladas, abriam as portas para o grande toro oco que a galeria formava.
Uma das quatro destinava-se aos capítulos secretos; as restantes eras as casas-fortes da Ordem.
O salão dos capítulos, embora fortemente iluminado por um grande alampadário de prata e uma profusão de candelabros, guardava ainda a penumbra característica das salas religiosas.
Alto e côncavo, guarnecido de grandes armários cheios de livros, era em toda a sua extensão revestido de grossas lajes com as juntas tomadas à argamassa romana.
Estudando as construções combalidas da Cidade Eterna, a milícia de Cristo lograra saber a composição dos cimentos usados nelas; e nas suas edificações eram empregados iguais com proficiência e sabedoria.
Todos os capitulares não tinham ainda chegado. A seda vazia aguardava o Reitor, e as cátedras do Procurador e do Secretário, ao dela e em frente à grande mesa oval, não estavam ocupadas.
As amplas curuis, nove, dos capitulares, em curva aberta para a mesa, tinham um ou outro professo.
Em um canto repousavam instrumentos de pedreiro e um caixão com argamassa dosada.
Assim que o padre João entrou na sala, correu ao jesuíta mais próximo, dando-lhe o toque simbólico de professo. Procurou entre as nove cadeiras a sua; sentou-se com desembaraço e esperou.
Vagarosamente chegaram os restantes e, logo que foram doze, o Reitor ergueu-se, acompanhado dos demais, e pronunciou claramente:
— Ad majorem Dei gloriam.
Os padres repetiram as palavras; e, tendo lembrado alguns trechos da Monita Secreta, o presidente do conclave explicou o motivo da reunião.
Ameaçada a cidade de uma invasão, as grandes riquezas da Ordem corriam perigo de saque. Era conveniente precavê-las em lugar seguro; tanto mais que tinham decuplicado com o recebimento de extraordinários valores da Ásia, do Colégio de Angola e de algumas províncias da América.
Lembrava também que, com elas, se deviam guardar as ricas alfaias, os paramentos e as imagens de Cristo e dos apóstolos, em ouro de lei.
O reitor falava em latim. As sílabas destacadas da língua arcaica voavam pela sala com um estalido seco.
Quando o reitor acabou, deu a palavra ao padre Saraiva, encarregado do acondicionamento das riquezas.
(continua...)
BARRETO, Lima. O subterrâneo do Morro do Castelo. Brasília: Ministério da Educação, Domínio Público, s.d. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?co_obra=16831 . Acesso em: 08 maio 2026.