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#Contos#Literatura Brasileira

As Sete Dores de Nossa Senhora

Por Coelho Neto (1898)

Já dois soldados passavam uma corda no alto da cruz. Houve um brado e os legionarios, curvando-se, com as pontas da corda pelos hombros, avançaram tirando esforçadamente o madeiro que outros empurravam e lá se foi erguendo o poste, escarvando a borda da cova; súbito, um resvallo, afundou na terra e ficou de pé, oscillando.

Logo o homem que pregara os cravos metteu as cunhas, accumulou pedrouços reforçando o amparo e o sangue da victima pingava em gottas lentas. Dois mastros, rubros como arrecadas de coral, penderam dos braços, um fio sinuoso escorreu dos pés e a multidão irrompeu em grita vendo o rabbino sacrificado, com uma tanga de Unho grosso em torno dos rins, os cabellos escorridos, empastando-se-lhe na fronte laivada pelos espinhos da coroa de junco.

Então os soldados, dando por concluido o fúnebre serviço, lentamente afastaram-se buscando sombras. Uns, despindo a couraça, pendurando os capacetes, estenderam-se sobre os mantos; outros, em circulo, puzeram-se a jogar, chalrando. Acharam a túnica de Jesus. Um delles abriu-a, examinou-a e mostrando-a, a rir, propoz um preço. «Será de quem a ganhar ao jogo !» bradaram. E foi um tumulto, uma alegre algazarra.

Entre o povo vozes apregoavam refrescos e bolos. Uma mulher ia e vinha offerecendo figos em voz larmirienta.

Nesse momento o ladrão, que não cessava de .resmungar, voltando a cabeça, disse em tom atrevido :

Se és o Christo, livra-te e a nós...» O outro, porém, reprehendeu-o :

—Nem te commoves do soffrimento, cuja dôr conheces. Tu e eu fizemos por elle, mas que fez este justo por merecê-lo ? E, docemente, inclinando-se para Jesus, implorou :

— Senhor, lembrai-vos de mim quando vos virdes no céu.

E o martyr respondeu docemente :

— Em verdade te affirmo que hoje serás commigo no paraiso.

Duas mulheres sahiram da multidão e; seguidas por um mancebo louro, chegaram-se vagarosamente á cruz.

A mais moça era linda, alta e branca, loura, d'olhos muito azues e amparava a mais idosa, que era Maria.

Ao verem-nas, os da turba logo sussurraram:

— É a de Magdala. A que vivia perto da fortaleza e tinha escravas negras e auletridas vindas das ilhas gregas. E citavam-se nomes de sadduceus abastados, de romanos perdulários que a procuravam e que, por ella, se haviam perdido.

— Dizem que se desfez de tudo, até do seu patrimônio, cedendo aos pobres o ultimo obulo.

— Enamorou-se do nazareno. Ouvia-o cho- rando, seguia-o descalça e, quando elle pa- rava, estendia-se-lhe aos pés, e sorrindo, com toda alma nos olhos, ficava-se a contemplá-lo. Lavou-lhe, certa vez, os pés com essência de nardo,, enxugou-os com os próprios cabellos.

Riram.

E as duas mulheres pararam defronte do cruzeiro. A de Magdala chorava. Maria mal se sustinha ; vergava, cambaleava nos braços do louro inancebo, que era João, o apóstolo mais moço. Olhava, estendia os braços e dos lábios seccos não lhe sahia palavra. Então, o meigo discipulo sentou-a aos pés da cruz e ali ficou a Dolorosa immovel, de olhos muito abertos, estremecendo, sem um gemido, sem uma lagrima.

Da turba partiam chufas — eram phariseus que intimavam o Christo a realisar um milagre. Martyrisavam-no com os próprios beneficios que elle fizera, atiravam-lho em rosto, á maneira de injurias, as suas proprias misericórdias.

— Não deste vista aos cegos ? Não fizeste andar os paralyticos ? Não resuscitaste os mortos ? Tira-te d'ahi. Chama os teus anjos.

Outros protestavam furiosos contra a legenda que encimava o cruzeiro, na qual Jesus era inculcado como Rei dos Judeus.

Servos do Templo faziam pelotas de barro e atiravam-nas á cruz. De repente, com um rangido, o corpo do martyr estorceu-se e palavras sahiram-lhe da boca :

— Mulher, eis ahi o teu filho. ..

Falava de João á Maria e, como o discipulo o encarasse, disse-lhe :

— Eis ahi a tua mãi.

E calou-se.

Não teve Maria coragem de levantar os olhos — quedou encolhida, tremendo como em frio intenso. A grita do povo não a tirava da immohilidade trágica, toda ella entregara-se ao soffrimento, só attendendo ás oscillações do cruzeiro no qual se encostara.

As nuvens cresciam no céu tenebrosas, encobrindo o sol; rolavam trovões á distancia, azas estalavam no ar pesado e o calor tornavase insupportavel. Foi então que, enfraquecidamente, o Christo murmurou com um estremeção violento :

— Meu Deus! Meu Deus ! porque me des- amparais ! ?

Andavam os soldados em volta da cruz cantarolando, e como outras mulheres se aproximassem, entraram a chasqueá-las. Offereciam-lhes posca, acenavam-lhes com punhados de tamaras ou pediam-lhes noticia do famoso propheta que reviçava os campos seccos e restituia a vista aos cegos, sarava os leprosos das ruinas, defendia os pequeninos.

Pouca gente estava nas immediaçõcs. Temendo a tempestade, que se armava, a maioria descera em alegre arranchada cantando, bailando por entre a urze e os cardos dos caminhos pedrentos.

Foi em meio do silencio que a voz de Jesus soou quasi extincta :

— Tenho sede.

(continua...)

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