Por Machado de Assis (1871)
A doença de Marques era mortal, como disse; os médicos davam-lhe apenas cinco ou seis dias de existência. O próprio doente conhecia o seu estado e preparava-se para morrer.
Este espetáculo, porém, por mais triste que fosse, não pôde abafar no espírito de Jorge a influência da moça. Mas então começou para ele uma sensação nova. A presença da morte como que lhe ia purificando a paixão. Ao ver a pobre esposa quase viúva, toda entregue aos cuidados de acompanhar até ao último suspiro o companheiro de sua vida; ao contemplar a dedicação e zelo com que o servia, as lágrimas silenciosas que derramava, as vigílias, as palavras de consolação, os afagos, tudo isso como que lhe acordou uma fibra adormecida do coração, e o rapaz renasceu em si a casta flor dos dezoito anos.
Algumas vezes, cabia-lhe fazer quarto ao doente, e nessas condições achou-se muita vez a sós com a prima. Ajudavam-se mutuamente nos cuidados que o enfermo exigia; mas quando este fechava os olhos para dormir, ficavam ambos silenciosos, ela com os olhos pregados no marido, ele com os olhos nela.
Não foi sem custo, ainda assim, que a moça consentiu na presença do primo; mas o tio insistiu e foi necessário ceder.
O pobre também não viu com bons olhos a presença do rapaz; mas foi este mesmo quem lhe disse, logo no dia seguinte àquele em que chegara:
— Há de reparar na minha estada aqui.
— Sim, disse o padre.
— Juro-lhe que...
— Não jure nada, tornou o padre; respeite a morte; é só o que lhe peço. A última hora chegou enfim. Marques expirou nos braços da esposa. O desespero e as lágrimas da mísera viúva faziam cortar o coração; todos tiveram força para consolá-la; Jorge não a teve; saiu da casa e só voltou no dia seguinte.
X
O CAMINHO DE DAMASCO
Três meses depois, estando o padre Barroso em casa apareceu-lhe Jorge. Vinha alegre e respeitoso como nunca.
— Sr. padre, disse ele; venho alegre, e posso ir daqui triste. Tudo depende do senhor.
— De mim?
— Do senhor.
— Vejamos.
Jorge sentou-se.
— Disse-lhe uma vez, começou ele, que estava curado das minhas loucuras.
— É verdade.
— Mentia.
— Fez mal.
— Mentia, sr. padre. Que quer? Eu supunha então que os conselhos da razão eram apenas ruins preconceitos, e que eu só tinha razão contra todos. Agora, sr. padre, afirmo lhe que venho curado.
O padre sorriu.
— Bem vê, disse ele, que o senhor mesmo me dá o direito de não acreditar.
— Sei, mas eu espero convencê-lo desta vez. E continuou:
— Quando eu adotei a resolução de ir para fora, levava ainda um pensamento mau no coração. Aparentemente cedia aos seus conselhos; mas, no fundo da minha alma, era guiado por um interesse. Voltei inopinadamente, porque a lembrança de... da pessoa que o senhor sabe, me dominava o espírito.
— Adivinhei-o, observou o padre.
— Mas quando cheguei, continuou Jorge, quando vi aquela divina criatura, aflita, melancólica, junto de seu marido quase expirante, a prodigalizar-lhe todos os carinhos que a natureza, que a religião lhe inspiravam, quando aquele solene espetáculo me apareceu aos olhos, posso jurar-lhe, sr. padre, que nesse momento todo o meu passado se desvaneceu e que um homem novo começa a palpitar em mim.
— Quê! disse consigo o velho; será este o mesmo Jorge!
Jorge continuou:
— Não lho disse então; quis ver se me não enganava; se realmente amava aquela moça com o fervor da pureza que ela merece. Lá vão três meses; sinto ainda hoje o mesmo que então sentia... Amo-a, e peço-lhe que interceda por mim.
— Quer então? perguntou o padre.
— Casar com ela.
— Deveras?
— Juro-lho!
O padre levantou-se e abriu os braços ao moço.
— Muito bem! disse ele, muito bem. Conte comigo, Jorge! Eu serei o advogado da sua causa. Bem dizia eu, ainda há coração nesse peito. Nem tudo estava perdido... Jorge correspondeu a esta efusão do velho amigo, contando-lhe todas as suas esperanças e incertezas; disse-lhe também que receava não ser atendido. — Por quê?
— Eu sei! Ela talvez me não perdoe o que lhe fiz...
— Há de perdoar, disse o padre; não o amará talvez; mas amá-lo-á mais tarde. Faça o senhor por si... deixe tudo a Deus, que ama os arrependidos.
Jorge saiu da casa do padre Barroso entre receoso e esperançado. Confiava, porém, no velho padre, e sabia a influência que ele tinha no ânimo da moca. Demais, seu pai e sua mãe, quando conhecessem a situação, influiriam em favor dele.
Não queria Jorge um casamento sem que o precedesse a aliança do coração; mas o que lhe parecia essencial era convencer a prima de que ele desejava ser amado. Amá-lo-ia ela depois? There is the rub, como diz Hamlet.
Jorge foi direito para casa. Em caminho, encontrou alguns amigos. Todos eles se espantaram da mudança do companheiro.
— Adeus, anacoreta! dizia-lhe um.
(continua...)
ASSIS, Machado de. O caminho de Damasco. Jornal das Famílias, 1871.