Por Machado de Assis (1869)
Quanto aos papéis, levantou-se uma dúvida relativamente à declaração do nome da mãe da moça. O major declarou peremptoriamente que Celestina não tinha mãe. Mas o coronel, que estava presente, interveio no debate, dizendo ao major estas palavras, que o doutor não compreendeu, mas que lhe fizeram impressão:
— Tomás! lembra-te de ontem à noite.
O major calou-se imediatamente. Quanto ao coronel, voltando-se para o dr. Antero disse lhe:
— Tudo se há de arranjar: descanse.
A conversa ficou nisto.
Mas houve quanto bastasse para que o doutor descobrisse nas mãos do coronel Bernardo o fio daquela meada. O rapaz não hesitou em aproveitar a primeira ocasião para entender-se com o coronel a fim de o informar acerca dos mil e um pontos obscuros daquele quadro que há dias tinha diante dos olhos.
Celestina não assistira à conversa; estava na outra sala tocando piano. O doutor lá foi ter com ela, e achou-a triste. Perguntou-lhe por quê.
— Eu sei! respondeu a moça; está-me parecendo que o senhor não gosta de mim; e se me perguntar por que a gente gosta dos outros, não sei.
O moço sorriu, pegou-lhe na mão, apertou-a entre as suas, e levou-a aos lábios. Desta vez, Celestina não gritou, nem resistiu; ficou a olhar embebida para ele, pendente dos seus olhos, pode-se dizer que pendente da sua alma.
XI
Na noite seguinte, o dr. Antero passeava no jardim, justamente por baixo da janela de Celestina. A moça não sabia que ele se achava ali, nem o rapaz quis por modo nenhum chamar a atenção dela. Contentava-se em olhar de longe, vendo de quando em quando desenhar-se na parede a sombra daquele delicado corpo.
Havia lua e o céu estava sereno. O doutor, que até ali não conhecia nem apreciava os mistérios da noite, aprazia-se agora em conversar com o silêncio, a sombra e a solidão. Quando se achava mais embebido com os olhos na janela, sentiu que alguém lhe batia no ombro.
Estremeceu, e voltou-se rapidamente.
Era o coronel.
— Olá, meu caro doutor, disse o coronel, faz um idílio antes do casamento?
— Estou tomando fresco, respondeu o doutor; a noite está magnífica e lá dentro está calor.
— Isto é verdade; eu também vim tomar fresco. Passeamos, se lhe não interrompo as reflexões.
— Pelo contrário, e eu até estimo...
— Ter-me encontrado?
— Justo.
— Pois então melhor.
O rumor das palavras trocadas pelos dois foi ouvido no quarto de Celestina. A moça chegou à janela e procurou ver se descobria de quem eram as vozes.
— Lá está ela, disse o coronel. Olhe!
Os dois homens aproximaram-se, e o coronel disse para Celestina:
— Somos nós, Celestina; eu e o teu noivo.
— Ah! que andam fazendo?
— Bem vês; tomando fresco.
Houve um silêncio.
— Não me diz nada, doutor? perguntou a moça.
— Contemplo-a.
— Faz bem, respondeu ela; mas como o ar pode fazer-me mal, boa noite.
— Boa noite!
Celestina entrou, e pouco depois fechou-se a janela.
Quanto aos dois homens, dirigiram-se para um banco de pau que ficava na outra extremidade do jardim.
— Diz então que estimava encontrar-me?
— É verdade, coronel; peço-lhe uma informação.
— E eu vou dar-lhe.
— Sabe o que é?
— Adivinho.
— Tanto melhor; evita-me um discurso.
— Quer saber quem é a mãe de Celestina?
— Em primeiro lugar.
— Pois que mais?
— Quero saber depois qual a razão desta loucura do major.
— Não sabe nada?
— Nada. Eu estou aqui em conseqüência de uma aventura singularíssima que lhe vou narrar.
O doutor repetiu ao coronel a história da carta e do recado que o chamara ali, sem ocultar que o convite do major chegara justamente na ocasião em que ele se achava disposto a romper com a vida.
O coronel ouviu atentamente a narração do moço; ouviu também a confissão de que a entrada naquela casa fizera do doutor um bom homem, quando não passava de um homem inútil e mau.
— Confissão por confissão, disse o doutor; venha a sua.
O coronel tomou a palavra.
(continua...)
ASSIS, Machado de. O anjo Rafael. Jornal das Famílias. Rio de Janeiro, 1869.