Por Aluísio Azevedo (1887)
Deram todos como certo o casamento da filha do Conselheiro com o estróina do conde. Fizeram-se comentários, reprovações. Mas, nesta mesma semana, uma noite, estando aquela ao piano e o outro ao seu lado, a virar-lhe as folhas da partitura, ela de repente deixou de tocar, soltou um grito e foi logo acometida por um novo ataque, ainda mais forte que o primeiro.
Havia descoberto, a passear no colarinho do fidalgo, um pequenino inseto da cor do jaquetão com que ele se exibia a cavalo. Acudiram-na de pronto com sais e algodões queimados. Fez-se uma desordem geral na sala; Magdá foi carregada a pulso para o quarto dando de pernas e braços por todo o caminho. E, daí a pouco, levantava-se a reunião e retiravam-se os convidados.
Não pode erguer-se da cama no dia seguinte, nem no outro, nem nos cinco mais próximos. Detinham-na grandes dores de cabeça, amolecimento nas pernas, e uma ligeira impressão dolorosa na espinha dorsal.
— Olhe! disse o Dr. Lobão ao Conselheiro — Isto ainda não é precisamente a tal fome de três dias, mas para isso pouco lhe falta!...
O pai de Magdá resolveu aproveitar a primeira estiada da moléstia para casar a filha com o conde.
— Decerto! decerto! aprovara o médico.
Todavia a caprichosa, ainda de cama, declarou que — definitivamente — mão se casaria com semelhante homem. — Nunca!
— Não! exclamou, com este é tempo perdido! Façam o que quiserem, eu não me caso!
— Mas porque milha filha?...
— Não sei, não quero!
— Ele te deu algum motivo de desgosto?...
— Ora! Já te disse que não quero!
E ninguém, nem ela própria, sabia explicar a razão porque. — Era lá uma cisma.
Quando se levantou estava desfeita; apareceram-lhe náuseas depois da comida e uma tosse seca que a perseguia enquanto estivesse de pé.
Foi então que o Dr. Lobão, enfurecido com a sua doente, porque se recusara a entregar-se ao conde, aconselhou o tal passeio à Europa.
VI
A viagem, como ficou dito, pouco lhe aproveitou ao sistema muscular e agravara-lhe sem dúvida o sistema nervoso. Magdá voltou mais impressionável, mais vibrante, mais elétrica. De novo, verdadeiramente novo, o que se lhe notava era só uma exagerada preocupação religiosa; estava devota como nunca fora, nem mesmo nos seus tempos de pensionista das irmãs de caridade. Mostrava-se muito piedosa, muito humilde e muito submissa aos preceitos da igreja. Falava de Cristo, pondo na voz infinitas doçuras de amor.
É que, enquanto percorrera as grandes capitais do mundo católico, visitando de preferência os lugares sagrados e as ruínas, o seu espírito, como se peregrinasse em busca do ideal fora lentamente se voltando para Deus. Preferira sempre os ermos silenciosos e propícios às longas concentrações místicas. As multidões assustavam-na com a sua grosseira e ruidosa atividade dos grandes centros de indústria e do comércio; o verminar das avenidas e boulevards, as enchentes de teatro, a concorrência dos passeios públicos, a aglomeração das oficinas e dos armazéns de moda, o cheiro do carvão de pedra, o vaivém dos operários, o zunzum dos hotéis; tudo isso lhe fazia mal. Agora, a sua delicadíssima sensibilidade nervosa reclamava o taciturno recolhimento dos claustros; pedia uma vida obscura e contemplativa, toda ocupada com um perenal idílio da alma com a divindade.
Em França, chegou a falar ao pai em recolher-se a um convento. O Conselheiro disparatou:
— Estava doida! Pois ele tinha lá criado uma filha com tanto esmero para a ver freira?... Não lhe faltava mais nada! Ah! bem quisera opor-se àquelas incessantes visitas aos mosteiros, aos cemitérios e às igrejas! Não se opusera — aí estavam agora as conseqüências! — Ser freira! Tinha graça! Não havia dúvida — tinha muita graça que a Sra. D. Madalena fosse a Paris para ficar num convento! Mas era bem feito!... era muito bem feito, porque, desde o dia em que se deu o que se dera com a visita ao túmulo de Eloisa e Abelardo, que ele devia estar prevenido contra semelhantes passeios e tomar providências a respeito daquela mania religiosa!
A visita ao túmulo dos legendários amantes fora com efeito muito fatal à filha do Conselheiro. Esta, depois de contemplá-lo em silêncio e por longo tempo, estática, abriu num pranto muito soluçado, findo o qual, pôs-se a dançar e cantar, num ritmo, que ia aos poucos se acelerando. O pai quis contê-la; Magdá fugiu-lhe, correndo pelo cemitério, saltando pelas sepulturas, tropeçando aqui e ali, tão depressa caindo como se levantando, a soltar gritos que pareciam uivos de fera esfaimada. Afinal, já sem forças e com as roupas em frangalhos, abateu por terra, ofegante, mas encabujando ainda num rosnar convulsivo, até perder os sentidos, e logo pegar em sono profundo, do qual só despertou vinte e tantas horas depois, já no hotel, para onde a levaram, sem que ela desse acordo de si.
Estava no período da coréia e das convulsões.
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio Azevedo. O homem. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7408 . Acesso em: 18 mar. 2026.