Por Aluísio Azevedo (1895)
Emílio foi, porém, convencido logo do contrário pelo que ouviu entre o diretor e o padre, cujo diálogo ia se esquentando a ponto de lhe chegar perfeitamente ao ouvidos.
- Abuso?... exclamava o vigário. Não vejo onde esteja o abuso!
- Pois não! replicava o diretor. Pois não! V Revma. vem ter comigo e pede-me que tome conta de seu pupilo pela metade do que recebo pelos outros alunos; eu consenti, consenti, porque sabia que o pobre menino não tem outra proteção além da sua... Pois bem! chegam as férias; o senhor não manda buscar, o que é sempre um inconveniente para um estabelecimento desta ordem, e...
- Não sei porque.. . interrompeu o padre.
- Sei eu, gritou o diretor. E a prova, olhe, é que tencionava fazer pelas férias um passeio àcorte com minha família, e não fiz!...
- Sim, mas o senhor, naturalmente, não foi detido só por este...
- Engana-se; seu pupilo foi o único aluno que ficou no colégio durante as férias!
- Não é culpa minha!
- De acordo e não é disso que faço questão. Deixa-me continuar...
- Pode continuar.
- Como dizia: o senhor, não satisfeito com o abatimento que lhe fiz durante o ano inteiro, pediu-me ainda que lhe fizesse um novo abatimento durante as férias. Permita que lhe diga: o que V. Rev.ma pagou não deu sequer para as comedorias, porque não é com tão pouco que se alimenta aquele rapaz! Não imagina que apetite tem ele!
André, ao ouvir esta acusação, abaixou o rosto, envergonhado como um criminoso, e pôsse a roer as unhas, sentindo sobre si o olhar colérico do padre, que o media da cabeça aos pés.
- Pois bem! prosseguiu o diretor; chegam de novo as férias e, quando estou resolvido a remeter-lhe o menino, vem o senhor e diz que desta vez não pode pagar tanto como das outras!... Ora! há de V. Rev.ma convir que isto não tem jeito!
- Seria uma obra de caridade!... objetou o padre.
- Sim, mas eu já fiz o que pude...
- Pois vá! Pagarei o mesmo que nas férias do ano passado.
- Não, senhor, não serve! V. Rev.ma leva o menino e, se quiser, pode apresentar-mo de novo em Janeiro. De outra forma não!
- Tenho então de levar o pequeno comigo? exclamou o padre, fazendo-se vermelho.
- De certo, respondeu o diretor sem hesitar. As férias Inventaram-se para descanso e eu não posso fica tranqüilo, sabendo que há um aluno em casa. Dá-me mesmo trabalho que me dariam vinte! Não! Não.
- Mas, doutor!.
- Não, não quero! É um cuidado constante. Retiram-se todos os empregados e fica aí o menino só com o servente; de um momento para outro, uma travessura, uma tolice de criança, pode ocasionar qualquer desgraça, e serei eu por ela o único responsável! Não quero!
- E se eu pagar o mesmo que pago durante ano? perguntou o reverendo já impaciente e cada vez mais vermelho.
- Nem assim.
- Nem assim? E quanto é preciso então que eu pague?
- Nada, porque estou resolvido a não aceitar.
- De sorte que eu tenho por força de levar o pequeno?...
- Fatalmente.
- Pois então, pílulas! exclamou o padre, deixando transbordar de todo a cólera; pílulas!
E, voltando-se para o Coruja:
- Vá! vá fazer a trouxa e avie-se!
O Coruja afastou-se tristemente enquanto o padre resmungava: Peste! só me serve para me dar maçadas e fazer-me gastar o que não posso!
O barão. que a certa distância ouvira tudo ao lado do filho, disse a este em voz baixa:
- Pergunta ao teu amigo se ele quer vir conosco passar as férias na fazenda.
Teobaldo, satisfeito com as palavras do pai, foi de carreira ter com o Coruja e voltou logo com uma resposta afirmativa.
- Reverendo, disse então o fidalgo aproximando-se do padre com suma cortesia. Por sua conversação com o Dr. Mosquito fiquei sabendo que o contraria não poder deixar o seu pupilo no colégio; lembrei-me, pois, se não houver nisso algum inconveniente, de levá-lo com o meu filho, a passar as férias na fazenda em que resido.
O diretor deu-se pressa em apresentá-lo um ao outro, desfazendo-se em zumbaias com o barão. E o padre, cuja fisionomia se iluminara à proposta do adulado, respondeu curvando-se:
- Meu Deus! O Sr. barão pode determinar o que bem quiser!... Receio apenas que o meupupilo não saiba talvez corresponder a tamanha gentileza; uma vez, porém, que o generoso coração de V. Exa. sente vontade de praticar esse ato de caridade..
- Não, não é caridade! atalhou Emílio, francamente. Não é por seu pupilo que faço isto, mas só para ser agradável a meu filho... Eles são amigos.
- Se V. Exa. faz gesto nisso.
- Todo o gosto.
- Pois então pequeno está às ordens de V. Exa.
- Bem. Ficamos entendidos. Levo-o comigo e trá-lo-ei com Teobaldo, quando se abrirem de novo as aulas.
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio Azevedo. O coruja. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7406 . Acesso em: 18 mar. 2026.