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#Romances#Literatura Brasileira

A Condessa Vésper

Por Aluísio Azevedo (1897)

— Não! e és muito menos desgraçado do que foste; apenas, convém que acordes por uma vez dos teus pesadelos. Era por isso, principalmente, que eu não queria morrer sem falar contigo, sem te deixar de pé na vida... e de olhos bem abertos... E como a morte é traidora e anda por aqui junto, não devemos perder tempo... Escuta, meu filho; antes, porém, de mais nada, olha, toma esta chave, e com ela tira daquele cofrezito de ferro uma volumosa carteira que lá está.

Gabriel obedeceu. Cumpria as ordens do padrasto com a solene submissão que se deve ao enfermos desenganados.

— Para que é isto?... perguntou ele agitando na mão a carteira que sacara do cofre.

— É para te ser restituído... explicou o enfermo, virgulando as palavras com uma tosse seca; aí dentro encontrarás, em bilhetes esterlinos, o principal e os juros dos cinqüenta contos de réis, que te tomei, contando já que havias de chegar à completa pobreza...

Gabriel arfava de comoção.

— Do que sobrar, prosseguiu o outro, e com o produto do que porventura aqui encontrarem depois de minha morte, farás o meu enterro e um última esmola aos meus doentes pobres. Espero não te esqueças de que tanto maior será a esmola, quanto mais modesto for o enterro, e de que não te ficará bem lesar aqueles desgraçados de quem era eu o único amigo... Quando te pedi o que agora te restituo, sabia que mais cedo ou mais tarde, cairias na miséria, mas, confesso, não a fazia tão certa... estava, como todos, bem longe de prever a quebra do Banco Mauá. Era a minha intenção deixar por algum tempo amargasses bem a necessidade, para poderes depois tomar o real sabor da vida, e dar então a esse último punhado de dinheiro o seu verdadeiro valor; a morte, porém, não me deixa tempo para tanto, e tenho de confiar ao te próprio critério o que esperava eu da ação benéfica dos fatos. E é isto só o que agora me preocupa...

Gabriel não pôde por mais tempo reprimir a sua comoção.

— Meu bom amigo! exclamou, lançando­se nos braços do padrasto.

— Sim! só o teu futuro me dá cuidado... É a única preocupação que levo comigo para fora da vida.

— Não se mortifique por minha causa!

— Oh! Sinto perfeitamente que me cabe grande parte na responsabilidade da tua desgraça... Amei­te demasiadamente... fiz de ti um ídolo, quando devia ter feito simplesmente um filho... Fui um visionário! Errei! Perdoa­me!

E, como Gabriel com um gesto lhe exprobasse falar tanto, Gaspar abaixou a voz, e acrescentou sucumbido:

— Ah! bem caro paguei o bem que te não fiz! bem caro paguei o meu tributo à delirante época em que decorreu a minha mocidade! Desgraçados que fomos! desgraçados que fomos!

E as lágrimas do velho romântico correram­lhe pelas barbas brancas.

— Oh! sossegue por amor de Deus! suplicava o rapaz; concentre todo o seu pensamento na boa ação que acaba de praticar comigo, salvando­me da miséria; e console­se com a idéia da gratidão que neste instante me invade a alma, para nunca mais a abandonar! Creia­me, meu pai, ligado piedosamente ao seu amor e sinceramente contrito dos meus erros!

— Obrigado, meu filho...

E o moribundo deixou pender a pálida cabeça sobre os travesseiros, inundada por uma auréola de extrema lucidez, em que se pressentia já o alvorecer de uma outra vida.

Foi arquejante, e talvez meio em presa ao supremo delírio, que ele mais tarde volveu a falar, levando ao peito descarnado a mão de Gabriel que entre as suas apertava.

(continua...)

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