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#Romances#Literatura Brasileira

O Guarani

Por José de Alencar (1857)

Seria essa desconfiança súbita proveniente da cólera que ela sentira, porque o índio salvara a sua vida, e a arrancara da desgraça que tinha destruído toda a sua família? 

Não; não era essa a causa; ao contrário, Cecília conhecia que fora injusta para com seu amigo que tinha talvez feito impossíveis por ela; e a não ser o receio instintivo que se aponderara involuntariamente de sua alma, já o teria chamado para pedir-lhe perdão daquelas palavras duras e cruéis. 

A menina ergueu os olhos tímidos e encontrou o olhar triste e súplice de Peri: não pôde resistir; esqueceu os seus receios, e um tênue sorriso fugiu-lhe pelos lábios. 

— Peri!... 

O índio estremeceu, mas desta vez de alegria e de contentamento; veio cair aos pés de sua senhora, que ele encontrava de novo boa como sempre tinha sido. 

— Perdoa a Peri, senhora! 

— És tu que me deves perdoar, porque te fiz sofrer; não é verdade? Mas bem sabes!... Não podia abandonar meu pobre pai! 

— Foi ele que mandou a Peri que te salvasse! disse o índio. 

— Como?... exclamou a menina. Conta-me, meu amigo. 

O índio fez a narração da cena da noite antecedente desde que Cecília tinha adormecido até o momento em que a casa saltara com a explosão, restando dela apenas um montão de ruínas. 

Contou que ele tinha preparado tudo para que D. Antônio de Mariz fugisse, salvando Cecília; mas que o fidalgo recusara, dizendo que a sua lealdade e a sua honra mandavam que morresse no seu posto. 

— Meu nobre pai! murmurou a menina enxugando as lágrimas. 

Houve um instante de silêncio, depois do qual Peri concluiu a sua narração, e referiu como D. Antônio de Mariz o tinha batizado, e lhe havia confiado a salvação de sua filha. 

— Tu és cristão, Peri?... exclamou a menina, cujos olhos brilharam com uma alegria inefável. 

— Sim; teu pai disse: “Peri, tu és cristão; dou-te o meu nome!” 

— Obrigado, meu Deus, disse a menina juntando as mãos e erguendo os olhos ao céu. Depois envergonhada desse movimento espontâneo, escondeu o rosto: o rubor que cobriu as suas faces tingiu de uns longes cor-de-rosa as linhas puras do colo acetinado. 

Peri ergueu-se e foi colher alguns frutos delicados que serviram de refeição à sua senhora. 

O sol tinha quebrado a sua força, era tempo de continuar a viagem e aproveitar a frescura da tarde para vencer a distancia que os separava do campo dos goitacás. 

O índio chegou-se trêmulo para a menina: 

— Que queres tu que Peri faça, senhora? 

— Não sei, respondeu Cecília indecisa. 

— Não queres que Peri te leve à taba dos brancos? ]

— É a vontade de meu pai?... deves cumpri-la. 

— Peri prometeu a D. Antônio levar-te à sua irmã. 

O índio fez a canoa boiar sobre as águas do rio, e quando tomou a menina nos seus braços para deitá-la no barquinho, ela sentiu pela primeira vez na sua vida que o coração de Peri palpitava sobre o seu seio. 

A tarde estava soberba; os raios do sol no ocaso, filtrando por entre as folhas das árvores, douravam as flores alvas que cresciam pela beira do rio. 

As rolas começavam a soltar os seus arrulhos no fundo da floresta; e a brisa, que passava ainda tépida das exalações da terra, vinha impregnada de aromas silvestres. 

A canoa resvalou pela flor da água como uma garça ligeira levada pela correnteza do rio. 

Peri remava sentado na proa. 

Cecília, deitada no fundo, meio apoiada sobre uma alcatifa de folhas que Peri tinha arranjado, engolfava-se nos seus pensamentos, e aspirava as emanações suaves e perfumadas das plantas, e a frescura do ar e das águas. 

Quando os seus olhos encontravam os de Peri, os longos cílios desciam ocultando um momento o seu olhar doce e triste. A noite estava serena. 

A canoa, vogando sobre as águas do rio, abria essas flores de espuma, que brilham um momento à luz das estrelas, e se desfazem como o sorriso da mulher. 

A brisa tinha escasseado; e a natureza adormecida respirava a calma tépida e perfumada das noites americanas, tão cheias de enlevo e encanto. 

A viagem fora silenciosa: essas duas criaturas abandonadas no meio do deserto, sós em face da natureza, emudeciam, como se temessem despertar o eco profundo da solidão. 

Cecília repassava na memória toda a sua vida inocente e tranqüila, cujo fio dourado tinha-se rompido de uma maneira tão cruel; mas era sobretudo o último ano dessa existência, desde o dia do aparecimento imprevisto de Peri, que se desenhava na sua imaginação. 

(continua...)

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