Por José de Alencar (1857)
A menina envolta na sua manta de seda, com a cabeça apoiada sobre a proa do barquinho, dormia ainda o mesmo sono tranqüilo da véspera; as cores tinham voltado, e sob a alvura transparente de sua pele brilhavam esses tons cor-de-rosa, esse colorido suave, que só a natureza, artista sublime, sabe criar.
Peri tomou a canoa nos seus braços, como se fora um berço mimoso, e deitou-a sobre a relva que cobria a margem do rio; depois sentou-se ao lado, e com os olhos fitos em Cecília, esperou que ela saísse desse sono prolongado que começava a inquietá-lo.
Tremia lembrando-se da dor que sua senhora ia sentir quando soubesse a desgraça de que ele fora testemunha na véspera; e não se achava com forças de responder ao primeiro olhar de surpresa que a menina lançaria em torno de si, logo que despertasse no meio do deserto.
Enquanto durou o sono, Peri, com o braço apoiado à borda da canoa e o corpo reclinado sobre o rosto da menina, esperando com ansiedade o momento que ele desejava e temia ao mesmo tempo, velava sobre Cecília, com um cuidado e uma solicitude admirável.
A mãe, a mais extremosa não se desvelaria tanto por seu filho, como esse amigo dedicado por sua senhora; uma réstia de sol que, enfiando-se pelas folhas, vinha brincar no rosto da menina, um passarinho que cantava sobre um ramo do arbusto, um inseto que saltava na relva, tudo ele afastava para não perturbar o seu repouso.
Cada minuto que passava era uma nova inquietação para ele; porém era também um instante mais de sossego e de tranqüilidade que a menina gozava, antes de saber a desgraça que pesava sobre ela, e que a privara de sua família.
Um longo suspiro elevou o seio de Cecília; seus lindos olhos azuis se abriram e cerraram, deslumbrados pela claridade do dia; ela passou a mão delicada pelas pálpebras rosadas, como para afugentar o sono, e seu olhar límpido e suave foi pousar no rosto de Peri. Soltou um gritozinho de prazer, e sentando-se com vivacidade, lançou um olhar de surpresa e admiração em torno da espécie de pavilhão de folhagem que a cercava; parecia interrogar as árvores, o rio, o céu; mas tudo emudecia.
Peri não se animava a pronunciar uma palavra; via o que se passava na alma de sua senhora, e não tinha a coragem de dizer a primeira letra do enigma que ela não tardaria a compreender.
Por fim, a menina, baixando a vista para ver onde estava, descobriu a canoa, e lançando um volver rápido para o vasto leito do Paraíba que se espreguiçava indolentemente pela floresta, ficou branca como a cambraia do seu roupão.
Voltou-se para o índio com os olhos extremamente dilatados, os lábios trêmulos, a respiração presa, o seio ofegante, e suplicando com as mãozinhas juntas:
— Meu pai!... meu pai!... exclamou soluçando.
O selvagem deixou cair a cabeça sobre o peito e escondeu o rosto nas mãos.
— Morto!... Minha mãe também morta!... Todos mortos!...
Vencida pela dor, a menina apertou convulsamente o seio que lhe estalava com os soluços, e reclinando-se como o cálice delicado de uma flor que a noite enchera de orvalho, desfez-se em lágrimas.
— Peri só podia salvar a ti, senhora! murmurou o índio tristemente. Cecília ergueu a cabeça altiva.
— Por que não me deixaste morrer com os meus?... exclamou ela numa exaltação febril. Pedi-te eu que me salvasses? Precisava de teus serviços?...
Seu rosto tomou uma expressão de energia extraordinária.
— Tu vais me levar ao lugar onde descansa o corpo de meu pai. É ai que deve estar sua filha... Depois partirás!... Não careço de ti.
Peri estremeceu.
— Escuta, senhora... balbuciou ele em tom submisso.
A menina lançou-lhe um olhar tão imperioso, tão soberano, que o índio emudeceu, e voltando o rosto escondeu as lágrimas que lhe molhavam as faces.
Cecília caminhou até a beira do rio e com os olhos estendidos pelo horizonte, que ela supunha ocultar o lugar em que habitara, ajoelhou e fez uma oração longa e ardente.
Quando ergueu-se, estava mais calma: a dor tinha-se repassado do consolo sublime da religião, dessa doçura e suavidade que infiltra no coração a esperança de uma vida celeste, que reuna aqueles que se amaram na terra.
Ela pôde então refletir sobre o que se tinha passado na véspera: e procurou lembrar-se das circunstâncias que haviam precedido à morte de sua família. Todas as suas recordações, porém, chegavam unicamente até o momento em que, já meio adormecida, falava a Peri, e dizia essa palavra ingênua e inocente que lhe escapara do intimo da alma:
— Antes morrer como Isabel!
Lembrando-se dessa palavra corou; e vendo-se só no deserto com Peri, sentiu uma inquietação vaga e indefinida, um sentimento de temor e de receio, cuja causa não sabia explicar.
(continua...)
ALENCAR, José de. O Guarani. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1842 . Acesso em: 26 jan. 2026.