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#Crônicas#Literatura Brasileira

Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro

Por Joaquim Manuel de Macedo (1862)

Não vão concluir que eu entenda que se deva criar o impossível diante daqueles que, não tendo bastante capacidade para aprender, procuram com um estudo assíduo e com a mais louvável constância triunfar da sua natureza mesquinha. A esses convirá seguir o antigo sistema de ensino, e ninguém se lembrará de ir dizer-lhes que não o sigam.

Ouvi. Mas não creio que havia quem pensasse, ou que há homens importantes que acreditam na conveniência de se dificultar a carreira das letras aos pobres de fortuna. É uma teoria que bem merecia o título de infernal. Não é aos pobres de fortuna: é aos pobres de espírito que convém não facilitar a carreira literária.

O templo das letras não se abre com chaves de ouro. Abre-se com as chaves da inteligência e da capacidade.

Estou convencido de que, não o sistema de ensino, mas o plano de estudos do Imperial Colégio de Pedro II, precisa ainda de revisão e de aperfeiçoamento. Não é, porém, aqui o lugar próprio para discutir esta matéria, que exige um exame muito desenvolvido.

A reforma que dividiu o Imperial Colégio de Pedro II em dois estabelecimentos, internato e externato, foi de suma vantagem para a disciplina, que apesar da mais constante vigilância, não podia ser sempre perfeita e isenta de inconvenientes em conseqüência da comunicação entre os alunos internos e externos. E a resolução que mandou os mesmos professores lecionar em um e outro estabelecimento atendeu à necessidade de se uniformizarem os estudos das duas casas de uma única instituição.

Do que deixo enunciado transpira sem dúvidas nem sombras a minha opinião sobre o Imperial Colégio de Pedro II, opinião conscienciosa e sem o menor vislumbre de parcialidade embora me quisessem achar motivos de suspeição.

Há, porém, ainda um ponto da questão que tem evidente interesse.

Pensam alguns, e quiçá foi escrito em algum periódico, que a fundação do Imperial Colégio de Pedro II importou em violento esbulho da propriedade dos pobres órfãos de S. Joaquim. Porque, de fato, o colégio tomou conta do seminário de S. Joaquim e de quanto a ele pertencia.

Não me parece justo este pensar.

A instituição do seminário dos órfãos de S. Pedro teve por fim proporcionar àqueles desvalidos da fortuna alguma educação literária, e se quiserem, tendente com especialidade e facilitar-lhes a carreira eclesiástica.

Mas o seminário de S. Joaquim tinha caído em completa decadência, e nem os bons desejos do príncipe regente, depois primeiro imperador do Brasil, puderam fazê-lo prosperar.

A reforma do ministro Lino Coutinho viera mudar até a natureza da instituição.

No primeiro plano: a antiga igreja matriz da Freguesia de Santana em dia da festa do Divino

Espírito Santo. No segundo plano: a primitiva estação da Cia. Estrada de Ferro

D. Pedro II, construída no mesmo local daquela igreja, no campo da Aclamação

Convento da Ajuda, vendo-se uma gôndola da linha de Botafogo

A essa reforma seguiu-se mais do que a decadência, seguiu-se a ruína.

A fundação do Imperial Colégio de Pedro II aproveitou o que se estava perdendo, e não só regenerou o seminário, mas ainda engrandeceu-o muito notavelmente.

A natureza primitiva da instituição não foi ferida ou o foi apenas no esquecimento da aula de cantochão, que não suponho ser necessária, quando há no colégio uma excelente aula de música onde se pode aprender bastante para ficar depois um grande cantochonista em poucos dias.

Enfim, os alunos do colégio, tomando o seu barrete de bacharéis, podem ir ser padres de muito mais préstimo do que chegariam a sê-lo os antigos seminaristas de S. Joaquim, se não tivessem fora da casa mestres que os ilustrassem, e ainda assim mesmo não podiam achar na corte todas as aulas que o Colégio de Pedro II oferece.

Conseqüentemente, não houve esbulho debaixo do ponto de vista em que acabei de tomar a questão.

Mas infelizmente houve e há uma injustiça que é preciso tornar bem clara para que seja reparada.

Houve e há uma injustiça. Porque o seminário e as suas propriedades eram dos pobres órfãos e não se atendeu nem ainda se atende bastante aos direitos dos pobres órfãos.

Até 1854, eram admitidos no Imperial Colégio de Pedro II até doze alunos internos gratuitos, que deviam ser órfãos pobres.

O regulamento para o Imperial Colégio de Pedro II, de 17 de fevereiro de 1855, diz no

“Art. 14 – O governo poderá mandar admitir gratuitamente, ouvido o reitor do colégio, até vinte alunos internos (art. 90 do decreto de 17 de fevereiro de 1854), dos quais doze serão órfãos reconhecidamente pobres.

“Além destes serão preferidos:

“1º – Os filhos de professores públicos que tiverem servido bem por dez anos.

“2º – Os alunos pobres que nas escolas primárias se tenham distinguido por seu talento, aplicação e moralidade.”

Por conseqüência, há para os pobres órfãos doze lugares internos gratuitos.

(continua...)

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