Por Aluísio Azevedo (1897)
Gabriel, por simples instinto de piedade, deixou que a desgraçada lhe pousasse a cabeça sobre o colo; mas, ao encarála rosto a rosto, ao sentir nas suas barbas as quentes lágrimas que ela vertia, e a respirarlhe o fêmeo e ferino cheiro daquelas mesmas carnes e daqueles mesmos cabelos, em que outrora se lhe prendera cativa para sempre a alma enamorada, todo o seu passado, toda a sua louca paixão, lhe acordou por dentro num arranco de desenfreado desejo, no qual ele a chamou inteira para o corpo, cingindoa nervosamente nos braços e devorandolhe os lábios com beijos ardentes, doidos, famintos, enquanto da garganta lhe rebentavam velhos soluços há tempo reprimidos e esmagados.
— Eu te amo! Eu te amo! Eu te amo! exclamaram ambos, rolandose abraçados.
XLVIII
A ÚLTIMA CAMISA
E ferraramse de novo.
Foram habitar num retiro da Tijuca, para além da Raiz da Serra, numa velha chácara emboscada de mangueiras, entre quedas e sussurros d’água.
Ambrosina parecia completamente transformada. Saía todos os domingos pela manhã, a ouvir missa numa capela próxima à casa, ia sempre de negro, com um véu sobre o rosto. Faziase agora muito religiosa, muito amiga de festas de igreja e de dar esmolas aos mendigos devotos.
Sonhavase já uma santa!
Mas queria mesa farta, e em certos dias o seu jantar era um banquete, a que só faltavam os convivas. Passava em demorada revista as hortas e os galinheiros da chácara, parava a contemplar o chiqueiro dos porcos, o curral das ovelhas, a vaca de leite e os cavalos de serviço. A sua criadagem aumentava todos os dias.
Gabriel, ocioso e apático, deixavase ir ficando ao lado dela, não em verdade pelo gosto que lhe desse a companhia da amante, mas pela previsão do mal que lhe traria a sua ausência, à imitação desses pobres operários das minas de mercúrio, que já não podem cá fora suportar o ar inalterado; e precisam, para manter o equilíbrio da vida, volver a respirar o veneno com que por muito anos viciaram o organismo.
Vinhamlhe às vezes tão negras e profundas crises de tédio, que Ambrosina, temendo, com o suicídio do companheiro, perder aquela farta aposentadoria, não se desgarrava dele rondandolhe os gestos e as intenções.
Todavia foi ela, e não Gabriel, quem rompeu com semelhante vida patriarcal. Não suporta por muito tempo a estabilidade doméstica o mastim que nasceu para a vagabundagem das ruas.
Uma vez, o rapaz, percebeulhe lágrimas, inquiriu, entre bocejos, sobre o que a punha nesse estado.
Ela, por única resposta, deixouselhe cair nos braços com uma explosão de soluços.
— Sou uma desgraçada! Sou a peste! exclamou.
— A que vem isso, filha?
— Pois não é assim? Tudo o que me cerca há de murchar e fenecer? todos os que se chegam para mim hão de fatalmente cair nessa tristeza e nesse desânimo em que te vejo mergulhado, receosa de que sucumbas de tédio?... Oh! estou farta de ver sofrer em torno do meu azar! É demais! Qual foi o meu grande crime, para que de mim pobre amaldiçoada dos céus! nunca partisse um elemento de alegria
sã e de sincero riso?! Quero ser boa e simples, quero ser como tantas outras mulheres que fazem a felicidade dos que as amam, mas já não me animo sequer a desejar o bem dos meus semelhantes, porque meu coração foi formado pela lama dos infernos. Maldita seja a hora em que eu nasci! maldita a estrela que me abriu os olhos! Quanto invejo essas pobres velhas, que chegam pacificamente ao fim de uma longa e uniforme existência, cercadas de netos e abençoadas por uma geração inteira! Quanto invejo os que partem deste mundo, sem deixar atrás de si um só eco de rugir de ódio ou de gargalhar de escárnio!
E voltando para Gabriel, disselhe numa agonia crescente:
— Vai! Foge de mim. Evitame! És moço; vai gozar em paz, vai viver! Casate, constitui família, fazete amado por uma mulher digna de ti! Meus carinhos te secam o sangue, meus beijos te umedecem a inteligência! Fogeme, querido! Amote muito, para consentir que te associes à minha estrela!
— Onde diabo queres tu chegar com tudo isso. Não te compreendo!
— Quero arrancarte deste degredo!
— Mas, filha, não foste tu própria quem escolheu isto aqui para morarmos?...
— Sim, porque não previa as conseqüências; agora porém, receio perderte... Esta solidão está a matarte lentamente, eu sofro por te ver nesse estado... Não! não ! É preciso salvarte!
— Qual! por mim, não! por mim não te incomodes. Em toda a parte me aborreço do mesmo modo... O mal vem de mim e não do lugar em que me acho... Se é só por isso, põe o coração à larga, e não te preocupes com os enfados de uma mudança.
— Mas é que eu própria começo a sucumbir de tédio!
— Ah! isso agora é outra cousa. Compreendo! Sentes falta do ruído da cidade. O corpo pedete pândega. Já me tardava, confessote!
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio. A Condessa Vésper. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2124 . Acesso em: 8 mar. 2026.