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#Crônicas#Literatura Brasileira

Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro

Por Joaquim Manuel de Macedo (1862)

Sétimo ano: latim, composição, aperfeiçoamento do estudo da língua; grego, versão mais difícil, temas; alemão, versão, temas, conversa; filosofia moral e história resumida dos sistemas comparados de filosofia; retórica e poética; análise e crítica dos clássicos portugueses, composição de discursos, narrações, declamação; história da literatura portuguesa e nacional, repetição de química, mineralogia e geologia.

Decreto de 22 de julho de 1859, criando a cadeira de doutrina cristã e história sagrada.

Aviso de 10 de agosto de 1860, mandando recolher ao tesouro nacional as apólices do colégio, ficando a cargo do mesmo tesouro a arrecadação do rendimento do patrimônio e das pensões e matrículas dos alunos do colégio, e determinando que o pagamento dos professores, empregados e fornecedores do colégio se efetuasse naquela repartição, ficando em poder do tesoureiro o dinheiro necessário para as despesas miúdas.

Decreto de 17 de novembro de 1860, suprimindo a tesouraria do colégio.

Portaria de 19 de junho de 1861, marcando as atribuições do escrivão do colégio.

E pára aqui o meu índice.

Pára, sim. E em vez de bocejardes de impaciência e de fadiga, olhai-me com gratidão, e abri a boca somente para agradecer-me o favor que vos fiz, deixando de ajuntar a meu índice não poucos avisos e portarias do governo que se referem ao Imperial Colégio de Pedro II, e que não mencionei porque entendi que não tinham importância para entrar na história desse estabelecimento.

Agradecei-me, pois, que eu vos prometo ser um pouco menos árido no próximo passeio.

V

Rematei o nosso último passeio apresentando, em rápido quadro, o transunto de toda a legislação e das mais importantes deliberações do governo relativas ao Imperial Colégio de Pedro II. Não fiz, porém, observação alguma a respeito de matérias tão interessantes, porque receei morrer afogado, metendo-me nesse mare magnum.

Entretanto, há no meio de toda essa longa série de medidas, há no sistema, aliás muito complexo do colégio algumas idéias que ainda estou em tempo de considerar e cujo elevado alcance exige menção menos ligeira e mais séria.

Como ficou claramente exposto na simples determinação do plano de estudos do colégio, está adotado neste estabelecimento o sistema do ensino simultâneo, e são, portanto, os alunos obrigados a estudar diversas matérias cujo número vai sempre avultando e crescendo à medida que eles vão subindo aos anos superiores. Este sistema, aliás tão conhecido como justamente preconizado na Europa culta, ainda não pôde no Brasil triunfar das prevenções de muitos críticos que, aferrados à velha usança que não abria aos estudantes as portas da lógica sem trancar sobre eles o portão do latim, nem lhes permitia resolver os problemas de Euclides sem que tivessem primeiro tirado todas as conseqüências do Genuense, esses críticos, repito, não compreendem que um menino possa estudar tanta coisa ao mesmo tempo, e sem mais tir-te nem guar-te, condenam por absurdo o ensino simultâneo.

É tempo perdido atacar com argumentos esta opinião prevenida. A lição da experiência há de destruí-la pouco a pouco, e em verdade sobram já os fatos que depõem contra ela.

É justo, porém, fazer uma concessão à trilha, que é ainda uma senhora de grande poder no Brasil, onde conta numerosos apaixonados, apesar das suas rugas e cabelos brancos.

O antigo sistema servia a todos e para todos. As inteligências, ainda as mais mesquinhas, conseguiam no fim de longos anos entender o seu Horácio, e adivinhar no sermão do padre-mestre professor de retórica as figuras de Quintiliano. E, pelo contrário, no ensino simultâneo seguido no Imperial Colégio de Pedro II, não podem aproveitar bastante as inteligências menos que medíocres.

Mas que se deve concluir daqui? Concluam outros como entenderem. Eu, porém, tenho para mim que isso abona ainda mais o sistema de ensino simultâneo em um curso de bacharelado em letras.

O jovem que quer ter o curso do bacharelado em letras pretende naturalmente seguir uma carreira literária e nessa carreira não aproveitam ao país senão aqueles que têm uma inteligência pelo menos medíocre e, por conseqüência, o Imperial Colégio de Pedro II, com o seu sistema de ensino simultâneo, tem um fim duplamente útil. Porque, ao mesmo tempo que facilita o progresso das inteligências felizes, faz com que desanimem no princípio da carreira literária os desfavorecidos da natureza, os pobres de espírito, os moços sem capacidade intelectual, que, por fim de contas, ainda conseguindo uma borla e um capelo, nunca passam de doutores de letras gordas, e trelêem, porque pensam que sabem o que ignoram e porque supõem que uma borla e um capelo enchem de idéias uma cabeça que nunca as teve.

(continua...)

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