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#Romances#Literatura Brasileira

O Moço Loiro

Por Joaquim Manuel de Macedo (1845)

— Nós nos demoramos até à noite; uma salva contendo a cruz foi deposta sobre um aparador no quarto da Sr.ª D. Honorina; às dez horas da noite a jovenzinha dormia; então, o Sr. Lauro foi pé por pé... entrou no quarto... e quis acordar sua prima... depois, vendo-a nos braços do mais sossegado sono, arrependeu-se do que ia fazer... e retirou-se sem acordá-la, e depois de beijá-la nos lábios...

Honorina corou até à raiz dos cabelos.

— E a cruz de brilhantes?! perguntou Ema.

— A cruz de brilhantes?! exclamou Félix; a cruz de brilhantes?!... ouvi-me até o fim, senhores. Um homem, que ouvira a história dessa cruz, e o gracejo do Sr. Lauro, introduziu-se furtivamente no quarto da menina; já estava aí, quando este entrou, querendo acordá-la; esse homem escondeu-se; e depois, tendo saído o Sr. Lauro, ele apoderou-se da cruz... e saiu cuidadosamente. O Sr. Lauro entrara nesse quarto, como homem honrado que era, e, pois, mais de dois olhos o viram também sair; o outro entrou como um ladrão... e, com as precauções de um ladrão, retirou-se sem ser percebido.

— Meu Deus!... exclamou Ema levantando as mãos.

Hugo e Honorina estavam tão silenciosos como estupefatos.

— Quando se procurou a cruz... ela tinha desaparecido; a princípio julgaram todos que o Sr. Lauro a havia escondido por zombaria... ele jurou que não, mas algumas pessoas asseguraram tê-lo visto entrar no quarto... ele o confessou também... finalmente, os senhores o sabem: o Sr.

Lauro de Mendonça foi expulso desta casa como um homem infame!...

— Tu o denunciaste!... bradou Ema exasperada.

— Eu fui um miserável caluniador!...

— E o ladrão?

— O ladrão?!... o ladrão?!... o ladrão?!... exclamou Félix com voz lúgubre; o ladrão fui eu!

— Maldito!... gritou Ema levantando a mão como querendo amaldiçoá-lo.

— Miserável!... bradou Hugo.

— Desgraçado!... disse Honorina.

Terríveis tormentos deviam estar dilacerando o coração do infeliz guarda-livros.

— Tudo isso!... maldito!... miserável!... desgraçado!... maldito, sim: porque fui capaz de ceder a essa influência satânica do demônio da inveja! maldito porque manchei a minha vida! maldito porque cometi um crime infame, e denunciei a um inocente como perpetrador dele!... miserável, porque, sofrendo torturas indizíveis, remorsos despedaçadores, nunca tive ânimo em sete anos que são passados, de vir aqui ajoelhar-me, confessar o meu crime, e obter o meu perdão!... desgraçado, sim, oh! muito desgraçado!... porque as penas que tenho sofrido, que sofro, e que sofrerei, são ainda maiores do que meu próprio delito!...

No entanto, Ema arquejava exasperada!... seu semblante deixava adivinhar que havia no fundo da sua alma uma dor cruel; Hugo o percebeu, e cuidadoso lhe falou:

— Que tem, minha mãe?

— Arrependimento também!... ele era inocente!...

— Eu o pensava, minha avó!... disse Honorina.

— E a cruz?... e a cruz?... exclamou a velha voltando-se de repente para Félix.

O guarda-livros arrancou do seio a caixa forrada de veludo preto, e de joelhos aos pés de Honorina:

— Só a ela!... disse, só a ela, que me há de perdoar!...

— Nunca!... nunca!... bradou Ema arrancando a caixa da mão da neta.

— Perdão!... perdão!... perdão!...

— É ela!... é a mesma!... a cruz sagrada!... a cruz da família!... exclamou a velha beijando a santa relíquia com entusiasmo.

— Perdão!... perdão!... perdão!...

— Possa meu primo perdoar-lhe, disse Honorina, como eu de todo o meu coração o perdôo...

— Nunca!... nunca!... sai desta casa!... disse Ema.

— Minha mãe! acudiu Hugo; ele deve estar bem arrependido!...

— Nunca!... nunca!... bradou a velha afastando-se até o fundo da sala, como horrorizada. Era tal a comoção que experimentava Ema, que Hugo a seguiu ao sofá, onde ela acabava de cair sufocada.

Félix aproveitou esse momento, e falando a Honorina:

— O meu perdão!... disse ele.

— Eu já lhe perdoei de todo o meu coração, respondeu ela.

— Oh! mas é preciso conseguir para mim o perdão de sua avó e de seu pai! eu podia esconder para sempre o meu crime; uma pessoa, porém, por amor da senhora talvez, uma única pessoa no mundo me arrastou a face pela vergonha, e me obrigou a vir aqui! não há, pois, virtude no que fiz!... confesso-o; eu estava arrependido; mas o medo... o medo só de um homem pôde fazer tanto; e é em nome desse homem que eu exijo também da senhora o meu perdão! e que faça com que sua família me perdoe e esqueça o meu delito!... não sou eu1... é ele quem lhe restitui a sua cruz, quem prova a inocência de seu primo, quem exige que eu seja por todos perdoado!... é ele!... ele só!...

— E quem é ele?... perguntou Honorina admirada.

— O moço loiro!...

(continua...)

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