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#Romances#Literatura Brasileira

O Guarani

Por José de Alencar (1857)

D. Antônio de Mariz ouviu em profundo silêncio as palavras do índio; e quando ele terminou, apertou-lhe a mão com reconhecimento. 

— Não, Peri: o que me propões é impossível. D. Antônio de Mariz não pode abandonar a sua casa, a sua família e os seus amigos no momento do perigo, ainda mesmo para salvar aquilo que ele mais ama neste mundo. Um fidalgo português não pode fugir diante do inimigo, qualquer que ele seja: morre vingando a sua morte. 

Peri fez um gesto de desespero. 

— Assim tu não queres salvar a senhora? 

— Não posso, respondeu o cavalheiro; o meu dever manda que fique e partilhe a sorte de meus companheiros. 

O índio no seu fanatismo não compreendia que houvesse uma razão capaz de sacrificar a vida de Cecília, que para ele era sagrada. 

— Peri pensou que tu amasses a senhora! disse ele fora de si. 

D. Antônio olhou-o com uma expressão de dignidade e nobreza. 

— Perdôo-te a ofensa que me fizeste, amigo; porque é ainda uma prova de tua grande dedicação. Mas acredita-me; se fosse preciso que eu me votasse só ao sacrifício bárbaro dos selvagens para salvar minha filha, eu o faria sorrindo. 

— E por que recusas o que Peri te pede? 

— Por quê?... Porque o que tu pedes não é um sacrifício, é uma vergonha; é uma traição. Tu abandonarias tua mulher, teus companheiros, para salvar-te do inimigo, Peri?... O índio abaixou a cabeça com abatimento. 

— Demais, essa empresa demanda forças com que um velho como eu já não pode contar. Havia duas pessoas que a poderiam realizar. 

— Quem? perguntou Peri com um raio de esperança. 

— Uma era meu filho, que a esta hora está bem longe daqui; a outra deixou-nos esta manhã e nos espera; era Álvaro. 

— Peri fez pela senhora o que podia; tu não queres salvá-la; Peri vai morrer a seus pés. 

— Morrer? disse o fidalgo. Quando tens a liberdade e a vida à tua disposição? E julgas que consentirei nisto?... Nunca! Vai, Peri; conserva a lembrança de teus amigos; a nossa alma te acompanhará na terra. Adeus. Parte: o tempo urge. 

O índio ergueu a cabeça com um gesto soberbo de indignação. 

— Peri arriscou bastantes vezes a sua vida por ti, para ter o direito de morrer contigo; tu não podes abandonar teus companheiros; o escravo não pode abandonar sua senhora. 

— És injusto, amigo: exprimi um desejo, não quis irrogar-te uma injúria. Se exiges uma parte do sacrifício, esta te pertence, e tu és digno dela: fica. Um grito dos selvagens retroou nos ares. 

D. Antônio, fazendo um gesto aos aventureiros, encaminhou-se para o gabinete. 

Cecília, adormecida sobre a cadeira de espaldar, sorria, como se algum sonho alegre a embalasse no seu sono tranqüilo; o rosto um pouco pálido, moldurado pelas tranças louras de seus cabelos, tinha a expressão suave da inocência feliz. 

O fidalgo, contemplando sua filha, sentiu uma dor pungente e quase arrependeu-se de não ter aceitado o oferecimento de Peri, e de não tentar ao menos esse último esforço para defender aquela vida que apenas começava a expandir-se. 

Mas podia ele mentir ao seu passado e faltar ao dever imperioso que o obrigava a morrer no seu posto? Podia trair na sua última hora àqueles que haviam partilhado a sua sorte? 

Tal era o sentimento de honra naqueles antigos cavalheiros, que D. Antônio nem um momento admitiu a idéia de fugir para salvar sua filha; se houvesse outro meio, decerto o receberia como um favor do céu; mas aquele era impossível. 

Enquanto o espírito do fidalgo se debatia nessa luta cruel, Peri, de pé, junto de Cecília, parecia querer ainda protegê-la contra a morte inevitável que a ameaçava. Dir-se-ia que o índio esperava algum socorro imprevisto, algum milagre que salvasse sua senhora; e que aguardava o momento de fazer por ela tudo quanto fosse possível ao homem. 

D. Antônio, vendo a resolução que se pintava no rosto do selvagem, tornou-se ainda mais pensativo; quando, passado esse momento de reflexão, ergueu a cabeça, seus olhos brilhavam com um raio de esperança. 

Atravessou o espaço que o separava de sua filha, e, tomando a mão de Peri, disse-lhe com uma voz profunda e solene: 

— Se tu fosses cristão, Peri!... 

O índio voltou-se extremamente admirado daquelas palavras. 

— Por quê?... perguntou ele. 

— Por quê?... disse lentamente o fidalgo. Porque se tu fosses cristão, eu te confiaria a salvação de minha Cecília, e estou convencido de que a levarias ao Rio de Janeiro, à minha irmã. 

O rosto do selvagem iluminou-se; seu peito arquejou de felicidade; seus lábios trêmulos mal podiam articular o turbilhão de palavras que lhe vinham do intimo da alma.

(continua...)

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