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#Romances#Literatura Brasileira

Os Dois Amores

Por Joaquim Manuel de Macedo (1848)

– Ouvi demais, exclamou ela com força. Não escuto nada... não quero... não posso. Eu quero ver meu filho... quero abraçá-lo... quero beijá-lo... quero... oh! meu filho é o anjo que me salva! meu filho é o perdão de meus pecados, que eu não merecia, e que Deus me concede!... ah!... não preciso que me guiem... eu conheço, eu sei quem é. Eu sei onde está meu filho! vou vê-lo, vou buscá-lo! meu filho!...

E, quase delirante, atirou-se para a porta.

Batiam nesse momento desesperadamente.

Rodrigues, com os olhos lavados em lágrimas, e soluçando fortemente, deu volta à chave.

A porta abriu-se, e ele entrou...

Mãe e filho caíram ambos de joelhos, e abraçaram-se um com outro chorando, e exclamando ao mesmo tempo:

– Minha mãe!...

– Meu filho!...

O filho de Mariana era Cândido.

CAPÍTULO XLIV

FILHO E IRMÃO

ELES CONTINUAVAM abraçados misturando suas lágrimas e seus carinhos. Era um tesouro insondável, uma riqueza enormíssima, que ambos acabavam de obter do céu.

Cândido achava finalmente o objeto daquele amor santo de seu coração; abraçava sua mãe.

Mariana encontrava inesperadamente no mundo uma criatura que supunha ter

ela mesma feito desaparecer do mundo: abraçava seu filho.

Não havia mais vácuo no coração do mancebo, nem fantasma na imaginação da mulher.

Choravam ambos; suas lágrimas porém eram bem doces; eram lágrimas de uma felicidade que se não mede: felicidade tão grande que não lhe bastam os lábios por onde sai em sorrisos, que lhe são precisos também os olhos por onde em lágrimas se derrama.

Completava o quadro a figura nobre do velho Rodrigues.

Aquele moço e aquela senhora abraçados, e de joelhos juntos daquele velho alto e respeitável, pareciam talvez dois amantes trocando votos do mais terno e puro amor à sombra de uma árvore secular e majestosa.

De repente, e com um movimento rápido e forte, Mariana desenlaçou-se dos braços de seu filho e recuou dois passos.

– Minha mãe!... exclamou o mancebo com os braços estendidos para ela.

Mariana lançou a mão ao seio, e tirou de dentro o embrulho de arsênico.

– Era a morte!... disse ela, lançando o papel no chão e pisando-o com força. Entre meu filho e meu peito estava ainda um crime de permeio! agora sim... estou livre... estou bela... estou pura!... o amor de meu filho lava todas as minhas culpas.

E atirou-se de novo nos braços de Cândido.

Aquele prazer, a felicidade era tão grande em ambos, que Mariana esquecia Henrique, e Cândido não se lembrava de Celina.

Mas ouviu-se o rodar de uma carruagem que parou junto ao alpendre do “Céu cor-de-rosa”.

– É ele! disse o velho Rodrigues.

– É ele! disse erguendo-se Cândido, que já sabia tudo.

– Agora pode chegar, disse por sua vez Mariana erguendo-se também.

Com efeito pouco depois entrou na sala Salustiano, que pareceu admirar-se de achar Mariana acompanhada de duas pessoas.

O irmão de Cândido estava mais pálido que nunca.

– Pensava encontrá-la só, senhora, disse ele.

– Enganou-se; eu quis que duas pessoas testemunhassem o que se vai passar entre nós dois, respondeu a viúva levantando nobremente a cabeça.

Salustiano chegou-se para uma janela.

– Se é uma traição o que se me prepara, tornou ele, lembre-se, minha senhora, que ainda não é noite fechada, que muita gente está passando por baixo desta janela, e que ao primeiro sinal de emprego de força, eu farei presente de uma folha de papel ao primeiro que passar.

Mariana sorriu e disse:

– Descanse, meu caro senhor, tudo se concluirá em perfeita paz; vejo porém que me lembrou a tempo do que me devia ter já lembrado: a noite começa, e estamos quase às escuras.

Deu dois passos para a porta do corredor e disse:

– Luzes! tragam luzes!

Cândido de um lado e Rodrigues do outro, observavam a cena de braços cruzados.

A sala achou-se bem depressa iluminada.

– Nada de cerimônias; sentemo-nos. Vejamos, meu nobre senhor, apresente-nos o seu ultimato.

– Senhora!...

– Nada de interjeições; sobretudo, eu tenho pressa.

– Pois bem, senhora; eis aqui um contrato de casamento, ao qual só falta a assinatura de sua sobrinha.

Mariana recebeu o contrato, e depois de seriamente examiná-lo, disse:

– Pouco entendo de direito; todavia, creio que o tabelião e as testemunhas deveriam ter-se achado aqui.

– É possível que o desejasse?

– Certamente; e como faltou essa formalidade, que me dizem ser de modo mui positivo recomendada pela lei, peço-lhe licença para, em nome de minha sobrinha, rejeitar este papel.

Salustiano mordeu os beiços e disse:

– E terei eu também licença para mostrar aqui, e em toda a parte, um outro papel que trago no meu bolso?

– Aqui é desnecessário, respondeu Mariana sem hesitar; porque sabemos ambos que o sr. Rodrigues tem inteiro conhecimento desse papel, e o sr. Cândido já não ignora sobre que ele trata.

– E lá fora? perguntou Salustiano elevando a voz.

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