Por Joaquim Manuel de Macedo (1845)
— Sr. Hugo de Mendonça, o que eu vou fazer é a relação de uma infâmia!... relação que os senhores me jurarão que não há de passar daqui...
— Mas uma infâmia de quem?...
— Minha! minha só.
E, dizendo isto, Félix trancou por dentro as portas, que davam entrada para a sala.
Os três continuavam estupefatos do que viam e ouviam. Félix parecia haver adquirido força admirável comparativamente com o estado de prostração que mostrara há pouco: era como o vigor e aspecto animado de um febrífugo no maior acesso.
— Os senhores me prometem inviolável segredo?...
— Sim, disseram os três.
— Pois bem, eu o vou dizer, e dito seja em castigo de meu crime; possa a minha vergonha lavar a mancha que me nodoa... quanto ao meu perdão... no fim, eu o conseguirei de joelhos!...
— Tu aumentas nosso espanto, Félix!
— Ouvi-me, senhores, disse Félix. Eu fui ainda bem criança recebido por vós, criado e educado como se fora vosso filho; tive para camarada de meus passatempos, para colega de meus estudos, para companheiro nos meus trabalhos um moço pouco mais ou menos de minha idade, que me estimou como seu melhor amigo: foi o Sr. Lauro de Mendonça. Esse moço, porém, era do vosso sangue, tinha pais, e, portanto, recebia mais desvelos que eu; ainda mais, a natureza lhe havia dado talento, espírito, imaginação, coragem e nobreza de ações; valia, pois, o dobro de mim. Semelhante certeza me torturava, e eu, que devia tudo à família desse mancebo, eu, que era por ele tratado como irmão, senhores, eu tinha inveja do Sr. Lauro de Mendonça!... eu o detestava!...
— Félix!...
— Oh!... se vós, senhores, soubésseis o que é a inveja!... se tivésseis sido invejosos uma só hora na vida!... mas não, não! vós não podeis compreender o que é sentir dentro do coração esse demônio, que agiganta o merecimento alheio e com isso nos tortura; que nos consome, nos rouba o sossego, o prazer, a saúde, e nos vai mirrando... nos vai enchendo a alma de amargor, de veneno, de raiva, de malvadeza!... que nos ensina a mentira e a calúnia... a intriga e a traição!... que nos promete a paz a troco de uma ação indigna, e nos ilude depois... e depois de nos tornar infames, nos aperta ainda com suas garras, e nos conserva tão desgraçados, tão miseráveis como dantes!... oh!... era esse demônio que eu tinha no coração!... cada triunfo do talento do Sr. Lauro era um golpe doloroso que eu recebia; cada raio de seu espírito me lançava o desespero na alma; os arroubos de sua imaginação, o ardor de sua coragem, a grandeza, a galhardia de suas nobres ações eram para mim um tormento cruel... doloroso... incessante!...
— Félix! Félix!...
— Uma consideração única me animava: eu conheci que os avós dele, que o falecido Sr. Raul de Mendonça, e que a respeitável viúva, diante de quem falo, pouco se interessavam por Lauro. A viveza e o talento do moço, acendidos nas chamas dos novos princípios, nas inspirações do século, desagradavam a seus avós, arraigados aos costumes e idéias das passadas eras; fingime, pois, inimigo das inovações e das novas instituições... ganhei, assim, a confiança dos chefes da família, ao mesmo tempo que o Sr. Lauro perdia tanto quanto eu lucrava. Todavia, isto não era tudo: eu sofria sempre os tormentos da inveja; porque o Sr. Lauro era feliz... tinha uma mãe, que o amava!... Um dia...
Félix interrompeu-se, estremecendo.
— Um dia... disse Hugo.
— Senhores; nos planos e nos desejos que me inspirava a inveja, eu esperava, eu contava achar um meio de perder para sempre na opinião de seus parentes ao Sr. Lauro de Mendonça; um dia...
O infeliz guarda-livros hesitou de novo.
— É preciso concluir, Félix!
Eu concluo, senhores, tornou o moço, animando-se. Um dia... foi há sete anos, pouco mais ou menos, a Sr.ª D. Honorina acabava de contar nove anos de idade. Houve um belo jantar de família, ao qual eu fui presente; findo ele a Sr.ª D. Ema de Mendonça chamou sua neta para junto de si, convidou-nos a ouvi-la, e contou uma história de uma cruz de família, cruz milagrosa, que por direito pertencia à Sr.ª D. Honorina, desde o dia em que fizesse nove anos de idade.
Consequentemente, a cruz apareceu riquissimamente preparada, cravada de preciosos brilhantes...
— Aí esteve o meu primeiro erro... disse Ema.
— Deixe-o continuar, acudiu Hugo.
— A Sr.ª D. Honorina, criança como era naquele tempo, demonstrou com todas as graças infantis o prazer que sentia por possuir a bela cruz. Então, o Sr. Lauro, que amava e muito a sua prima, e que gostava de mover suas respostas, com ela gracejando, disse-lhe — eis uma bela cruz para ser furtada... tem ricos brilhantes, que se podem vender... — e foi a Sr.ª D. Ema quem lhe respondeu, dizendo: — Lauro, tu és um louco; não se graceja sobre um objeto sagrado.
— Foi assim, disse Ema; eu me lembro de tudo isso.
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. O moço loiro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2107 . Acesso em: 6 jan. 2026.