Por Aluísio Azevedo (1897)
Dois meses depois, D. Felipe desaparecia do Rio de Janeiro, sem se despedir da sua companheira de vícios, e ainda por cima lhe alçando mão de algumas das melhores jóias que ele próprio lhe havia dado.
E a roda da fortuna começou a desandar vertiginosamente para a Condessa Vésper.
Tão lenta e folgada fora a ascensão, quão rápida e pungente era agora a descida. O atrevido fausto em que a deixara instalada o fugitivo príncipe, os dispendiosos hábitos que lhe ensinara, e o exigente meio que lhe dera, mais lhe agravavam a situação e lhe precipitavam o fatal soçobro. Pouco depois da deserção de D. Felipe, já o largo crédito que se havia aberto em torno dela, se fechava com um golpe cicatrizado.
Ambrosina, viu aflita desmoronarse debaixo de seus pés, como por alçapões de teatro, todo o rebrilhante e cenográfico pedestal em que num momento se julgou soberana; e compreendeu, ai dela! que isso acontecia, não porque só um príncipe D. Felipe a pudesse manter naquelas alturas, mas porque a sua época passara, porque outras mulheres, mais moças e mais novas, lhe empolgavam, entre vitoriosas gargalhadas, o chocalheiro e leve cetro da libertinagem fluminense.
Vésper descambava e amortecia à luz de novas estrelas.
O próprio Alcazar, onde campeara ela no Rio de Janeiro os seus decisivos triunfos de mulher formosa e pública, caía também de moda, e só era já freqüentado por uma velhada quieta e conservadora, metodicamente pagodista. E pouco sobreviveu ele ao desmaio da sua última estréia de primeira grandeza depois de agonizar por alguns meses, repetindo velhas e estafadas canções dos seus tempos felizes, entregou a alma ao diabo, quase juntamente com o esperto Arnaud, cuja vida parecia identificada com a do endemoninhado teatrinho.
De repente, viuse Ambrosina cercada de uma negra nuvem de meirinhos e credores de dentes refilados, que lhe fariscavam rendas e alfaias, jóias e baixelas, móveis, carros e cavalos, sem que tudo isso lhe desse não obstante para pagar em juízo a metade do que devia a executada.
Dentre os meirinhos, um, que se mostrava diretamente interessado por ela, procurou falarlhe em particular.
Ambrosina agarrouse a ele, como o náufrago à primeira mão que se lhe estende; mas, ao encarálo de perto, e ao reconhecêlo afinal, teve um instintivo retraimento de surpresa e de repugnância.
XLVII
RELAPSIA
Céus! o meirinho era o Melo Rosa, o seu primitivo cúmplice!
Mas que estranha cara tinha agora o trampolineiro! parecia raspada a caco de telha! o diabo do homem estava escamoso, descabelado e cor de brasa; não dava absolutamente idéia do que fora quinze anos antes! Que sinistro mal o poria naquele repulsivo estado?
— Não se deixe ficar aqui... É pior! segredou ele a Ambrosina, arrastandoa para um canto escuro. Trate quanto antes de apanhar o que de melhor puder carregar dentro das malas, e neguese a futuras intimações... O escrivão ainda não chegou... Se não fizer o que lhe digo, estes cães lhe arrancarão a camisa do corpo! Mas mexase sem perda de um segundo! Daqui a pouco a casa estará interdita!
— Mas para onde hei de ir?...
— Tome este cartão. É de um chalé da rua dos Arcos... Lá encontrará quartos com pensão, ou sem pensão. Boa gente! Diga que vai em meu nome — eu agora me chamo Melo Júnior.
A Condessa Vésper aceitou o alvitre do seu exofício transformado em beleguim, e lá foi, com um nome suposto, dar consigo ao latíbulo por aquele inculcado.
Era uma casa de ar muito tranqüilo, mas suspeito, de um luxo encardido e mofado em que as capas dos sofás e das cadeiras acolchoadas serviam, não para as resguardar do pó, mas para esconder aos olhos dos hóspedes os ultrajes do tempo e do uso. Por toda a parte cortinas, tapetes, biombos, quadros e mesinhas, tudo, porém, repuído e amolambado.
Pelo esvaziamento das portas mal cerradas, lobrigavamse vultos brancos de mulheres em penteador, arrastando chinelas de veludo e fumando cigarros. E pelos corredores sentiase um cheiro impertinente da cozinha de hotel.
Ambrosina, ao tomar pé nos seus novos aposentos, desatou a chorar, e foi com o coração desfeito em amargura que a reformada loureira essa noite se recolheu à cama, depois de haver jantado no Dori, para se não encontrar com o Melo Rosa, que ficara de ir ter com ela ao pôr do sol.
Mas, no dia seguinte, logo pela manhã, ao correr os olhos pelo primeiro jornal que lhe caiu nas mãos, teve uma grande alegria: na lista dos passageiros do Rio da Prata estava o nome de Gabriel.
— Que felicidade! exclamou ela, secando o vestígio das lágrimas com um sorriso.
E correu à escrivaninha, onde de um fôlego minutou uma extensa carta, que terminava deste modo:
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio. A Condessa Vésper. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2124 . Acesso em: 8 mar. 2026.