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#Romances#Literatura Brasileira

O Guarani

Por José de Alencar (1857)

— E por que nos deixa? 

— Porque é preciso. 

— Ao menos volta logo. Não devemos morrer todos juntos, da mesma morte? O índio estremeceu. 

— Não; Peri morrerá; mas tu hás de viver, senhora. 

— Para que viver, depois de ter perdido todos os seus amigos?... 

Cecília, que há alguns momentos sentia a cabeça vacilar, os olhos cerrarem-se e um sono invencível apoderar-se dela, deixou-se cair sobre o espaldar da cadeira. 

— Não!... Antes morrer como Isabel! murmurou a menina já entorpecida pelo sono. 

Um meigo sorriso veio adejar nos seus lábios entreabertos, por onde se escapava a respiração doce, branda e igual. 

Peri a princípio assustou se com esse sono repentino que não lhe parecia natural e com a palidez súbita de que se cobriram as feições de Cecília. 

Seus olhos caíram sobre a taça que estava em cima da mesa; deitou nos lábios algumas gotas do liquido que tinham ficado no fundo e tomou-lhes o sabor: não podia conhecer o que continha; mas satisfez-se em não achar o que receara. 

Repeliu a idéia que lhe assaltara o espírito, e lembrou-se que D. Antônio sorria no momento em que pedia à sua filha para beber, e que a sua mão não tremera apresentando-lhe a taça. 

Tranqüilo a este respeito, o índio, que não tinha tempo a perder, ganhou a esplanada, correu para o quarto que ocupava, e desapareceu. 

A noite já estava fechada, e uma escuridão profunda envolvia a casa e os arredores. Durante esse tempo nenhum acontecimento extraordinário viera modificar a posição desesperada em que se achava a família a calma sinistra, que precede a grandes tempestades, plainava sobre a cabeça dessas vitimas que contavam, não as horas, mas os instantes de vida que lhes restavam. 

D. Antônio passeava ao longo da sala, com a mesma serenidade de seus dias tranqüilos e plácidos de outrora; de vez em quando o fidalgo parava na porta do gabinete, lançava um olhar sobre sua mulher que orava e sua filha adormecida; depois continuava o passeio interrompido. 

Os aventureiros grupados junto à porta seguiam com os olhos o vulto do fidalgo que se perdia no fundo escuro da sala, ou se destacava cheio de vigor e de colorido na esfera luminosa que cingia a lâmpada de prata suspensa ao teto. 

Mudos, resignados, nenhum desses homens deixava escapar uma queixa, um suspiro que fosse; o exemplo de seu chefe reanimava neles essa coragem heróica do soldado que morre por uma causa santa. 

Antes de obedecerem à ordem de D. Antônio de Mariz, eles tinham executado a sua sentença proferida contra Loredano; e quem passasse então sobre a esplanada veria em torno do poste, em que estava atado o frade, uma língua vermelha que lambia a fogueira, enroscando-se pelos toros de lenha. 

O italiano sentia já o fogo que se aproximava e a fumaça, que, enovelando-se, envolvia-o numa névoa espessa; é impossível descrever a raiva, a cólera e o furor que se apossaram dele nesses momentos que precederam o suplício. 

Mas voltemos à sala em que se achavam reunidos os principais personagens desta história, e onde se vão passar as cenas talvez mais importantes do drama. 

A calma profunda que reinava nessa solidão não tinha sido perturbada; tudo estava em silêncio: e as trevas espessas da noite não deixavam perceber os objetos a alguns passos de distancia. 

De repente listras de fogo atravessaram o ar, e se abateram sobre o edifício; eram as setas inflamadas dos selvagens que anunciavam o começo do ataque; durante alguns minutos foi como uma chuva de fogo, uma cascata de chamas que caiu sobre a casa. 

Os aventureiros estremeceram; D. Antônio sorriu. 

— É chegado o momento, meus amigos. Temos uma hora de vida; preparai-vos para morrer como cristãos e portugueses. Abri as portas para que possamos ver o céu. 

O fidalgo dizia que lhe restava uma hora de vida, porque, tendo destruído o resto da escada de pedra, os selvagens não podiam subir ao rochedo senão escalando-o; e por maior que fosse a sua habilidade, não era possível que consumissem nisso menos tempo.  

Quando os aventureiros abriram as portas, um vulto resvalou na sombra, e entrou na sala. Era Peri. 


CRISTÃO 

 

O índio dirigiu-se rapidamente a D. Antônio de Mariz. 

— Peri quer salvar a senhora. 

O fidalgo abanou a cabeça em sinal de dúvida. 

— Escuta! replicou o índio. 

Aproximando os lábios do ouvido de D. Antônio, falou-lhe por algum tempo em voz baixa, e num tom rápido e decisivo. 

— Tudo está preparado: parte, desce o rio; quando a lua estender o seu arco chegarás à tribo dos Goitacás. A mãe de Peri te conhece: cem guerreiros te acompanharão à grande taba dos brancos. 

(continua...)

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