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#Romances#Literatura Brasileira

Os Dois Amores

Por Joaquim Manuel de Macedo (1848)

– Ao anoitecer... dores... ânsias horríveis... no fim de algumas horas perda completa de sentidos... ficou como morta.

– Oh!... por que não morri, meu Deus?!

– Senhora, quando aquela mulher abriu outra vez os olhos, a natureza falou antes da vaidade. Ela abriu os olhos e exclamou com dor imensa: – meu filho!... – e a velha parenta, que a pouca distância a observava tristemente, respondeu: – nasceu morto.

– Ah!...

– Porém no dia seguinte, às onze horas da noite, senhora, a borrasca ribombava... a chuva caía... os elementos estavam desenfreados... e um homem envolvido em longa capa negra foi bater à porta de uma pobre casa na cidade do Rio de Janeiro. Dentro dessa casa estavam rezando aos pés de Nossa Senhora das Dores uma mulher velha e uma escrava. A porta foi aberta; o homem entrou, lançou a capa fora de seus ombros, e em nome da Santíssima Virgem Mãe de Deus, aquela mulher recebeu e adotou uma criança recém-nascida.

– E essa criança?... exclamou Mariana com um grito desesperado.

– Era teu filho, Mariana!

A viúva soltou um brado arrancado do âmago do coração, e caiu aos pés do velho Rodrigues.

– O licor do sinistro frasquinho havia sido trocado.

– Meu filho!... meu filho!... bradava a pobre senhora.

– Mas desde que Leandro soube que a alma de Mariana concebera o horrível pensamento de um infanticídio, e tratara de realizá-lo, aborreceu-a tanto quanto a havia amado.

– E meu filho?... onde está meu filho?... perguntava Mariana desesperadamente.

– Essa criança foi criada com desvelo e ternura; nada lhe faltou nunca... ao sair da infância partiu para a Europa...

– Educava-se lá quando seu pai morreu...

– E meu filho?

– Na véspera do dia de sua morte, Leandro fez sair todos de seu quarto, e ficou só com seus dois amigos. “João, Rodrigues, eu vou deixar-vos o meu filho. Eu podia fazer testamento, e reconhecer por meu filho esse pobre inocente, que ambos conheceis. Mas ele pode morrer antes de chegar à idade em que deverá receber a herança que lhe compete, e eu teria infrutiferamente publicado um erro de minha mocidade, e dado assim a conhecer a uma mãe desnaturada o filho, que ela pensa ter assassinado. Pensei melhor, quanto a mim.” Leandro mandou-nos abrir na gaveta e tirar dela um papel que designou, uma carta que estava fechada. “Eis aqui, continuou ele, uma carta que fareis chegar cautelosamente às mãos da filha de Anacleto. Vai aí dentro toda a nossa correspondência do tempo de amor e de esperança. Agora este papel, meus amigos, é a última prova que vos dou da minha amizade. Este papel é o escrito de reconhecimento de meu filho, que vós ides assinar como testemunhas, guardar para depositar em suas mãos, quando ele fizer vinte e um anos.” João e eu assinamos e guardamos então o escrito de reconhecimento de teu filho, mulher.

– Oh! exclamou Mariana; mas que me importa isso?... que tenho eu com essa história? ouviu, senhor, eu quero meu filho!

– Leandro morreu, senhora, continuou Rodrigues sem atender a Mariana; e ficaram seus dois amigos velando sempre sobre o pobre moço. Ele voltou da Europa, e eu tive o pensamento de trazê-lo ao teto em que morava a sua mãe.

– Oh! sim!... sim!... disse a viúva com as mãos postas.

– Para consegui-lo vim aqui pedir, como um pobre velho sem meios, o lugar de guarda-portão do “Céu cor-de-rosa. Dali, daquele alpendre, velei por teu filho, mulher! dali, daquele alpendre, concebi o projeto de trazê-lo para junto de sua mãe, fazendo-o esposo da mais bela das virgens, esposo de Celina...

– Oh!... bradou Mariana, em cujo espírito tinha brilhado um raio de luz.

– E agora, mulher, teu filho? teu filho já tem vinte e um anos... ama a Celina; e tu, mulher, queres matar a mãe do mísero mancebo, porque não pudeste conseguir roubar-lhe o coração da amada! sim, queres suicidar-te!

– Meu filho!... meu filho!... meu filho!... bradava Mariana andando como louca pela sala.

– Tu o enxotaste já uma vez para longe desta casa!

– Meu filho!...

O movimento que havia, e o ruído que se fazia na sala, impediu que Rodrigues e Mariana ouvissem os soluços de alguém que se achava escutando junto da porta.

– Mas enfim, mulher, continuou o velho, tu tens sido já bem castigada!...

agora...

– Eu quero meu filho!

Mariana falava por entre lágrimas; seus cabelos estavam soltos, seu olhar brilhante, seu rosto enrubescido, e sua voz alterada.

– Escuta, disse o velho,

(continua...)

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