Por Aluísio Azevedo (1897)
Ambrosina tinha disso perfeita ciência, e rejubilava por conseguinte com a sua heráldica conquista.
Sua Alteza, ao cabo de alguns meses, propôs, tomála para si exclusivamente, com a condição, porém, de que a amante não havia de pôr os formosos pés em tábuas de ribalta, nem dar trela a guardasmarinhas, enquanto estivesse em companhia dele.
Ela aceitou, arroubada de contentamento. E foi essa a fase mais brilhante do seu efêmero fastígio; foi como vai ver o leitor, o momento apogístico da sua venusta glória, o delicioso instante da embriaguez de Safo, mas também o Leucale fatal, donde havia de rolar a Condessa Vésper ao abismo comum das mercadorias de amor.
XLVI
APOGEU E OCASO
D. Felipe pôslhe casa em Botafogo, mandou, por inspiração própria e segundo desenho seu, aparelhar o brasão de armas da Condessa Vésper — uma grande estrela de prata em campo azulceleste, cortado em diagonal por duas ordens de lágrimas vermelhas; em cima a coroa condal, e por baixo do escudo um ramo de camélias brancas e deulhe lacaios de libré agaloada, tomando do brasão as duas cores carmim e prata; e deulhe jóias, e deulhe rendas tão preciosas que valiam ainda mais que as jóias, e vinhos tais, que valiam mais que as rendas.
Vésper tocara ao seu zênite, à fúlgida culminância que precede ao fatal declínio.
Pouco, muito pouco tempo durou o plenivênio de sua glória, apenas um ano, mas nesse fugaz instante gozou ela todas as delícias das voluntariedades; foi por um momento de sua vida o centro planetário, em torno do qual todos os prazeres livres e todos os vícios caros do Rio de Janeiro bailaram ébrios de gozo. Os principescos salões de sua casa converteramse, não só no quartel general de todas as prodigalidades elegantes, de todas as gentis libertinagens de um outro sexo, mas ainda no alegre ponto de reunião de muito dignitário de gravata lavada e de homens de real merecimento libertário, artístico e científico. Nas suas esplêndidas noitadas, de ceia permanente, em que o champanha corria a jorros e a orquestra só emudecia ao clarear da aurora; em que as bancas de lansquenet, de bacará e de trente e quarente, se sucediam, deslocando centenas de contos de reis, viramse, ao lado das vulneráveis divas de colo nu, altas patentes de mar e terra, poderosos conselheiros da Corte, velhos senadores cobertos de condecorações; formidáveis banqueiros, cujos sorrisos de lábios secos valiam ouro, capitalistas donos da Praça, e titulares que dariam para uma coleção completa, desde o bisonho comendador de grau mínimo na Maçonaria, até o rebarbativo Conde, grau 33, com chácara em arrabalde e o nome imposto pela Câmara Municipal à rua em que ele habitava.
E ela, ao lado do seu príncipe, cercada de admirações de ricos e de protegidos pobres, sentiase plenamente feliz, gozava essa felicidade, tão ambicionada e tão rara, que só experimentam os privilegiados da fortuna, os eleitos da sorte; a felicidade de chegar ao fim proposto, de cumprir o seu destino na terra, de tocar com as mãos e com os lábios o ideal sonhado durante a vida.
Nesse ano de plenitude, Ambrosina chegou a ser uma irresistível potência, cujo valimento se estendia escandalosamente até aos degraus do Trono. Quantas vezes não foi ela, às horas escusadas do pôr do dia, visitada e adulada por estranhos de boa cotação na sociedade, que lhe iam solicitar a graça de uma recomendação para os magnatas do poder? Quantas vezes não recebeu, com frios gestos de rainha, a clandestina visita de alguma pobre senhora, que entre risonhas e envergonhadas lágrimas, lhe suplicava uma palavra de interesse pela promoção do marido ou pela nomeação do filho? Quantos casamentos de dinheiro, e quantos casamentos de amor, e quantos adultérios, e quantas reconciliações conjugais, não dependeram dela? Quantos destinos não lhe foram parar às felinas mãos, para destas receber a nova direção que lhes quisesse imprimir a soberana fantasia da loureira?
De tão senhora da fortuna, e de tão satisfeita consigo mesma, chegou Ambrosina a revelar belas alterações no temperamento e no gênio. Era difícil surpreenderlhe então um gesto de mau humor ou de má vontade; dera ao contrário para mostrarse indulgente e branda com os inferiores, compassiva e humanitária para com os humildes e fracos, cheia de um espetaculoso interesse pelas vítimas de qualquer notável desastre. Acudiamlhe agora, àqueles mesmos lábios a cujo sopro vidas de vinte anos se apagaram, doces sorrisos de meiga afabilidade para os pálidos necessitados, que de longe se arrastavam até à fímbria de seus vestidos em súplica de piedosos. Quem sabe lá o que não sairia ainda de semelhante demônio, se aquele plenário ano se prolongasse indeterminadamente!... Mas, um dia fatídico para ela! o seu áulico amante lhe divisou por entre os ondulantes e fartos cabelos da nuca, os primeiros fios brancos, e lhe pressentiu através dos beijos as primeiras rugas da velhice.
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio. A Condessa Vésper. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2124 . Acesso em: 8 mar. 2026.