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#Romances#Literatura Brasileira

O Guarani

Por José de Alencar (1857)

O índio fechou de novo a porta e acompanhou sua senhora. 

— Ela morreu feliz! disse Peri. 

Cecília fitou nele os seus grandes olhos azuis, e corou.  


IX 

O CASTIGO 

 

O dia declinava rapidamente e as sombras da noite começavam a estender-se sobre o verde-negro da floresta. D. Antônio de Mariz, apoiado ao umbral da porta, junto de sua mulher, passava o braço pela cintura de Cecília. O sol a esconder-se iluminava com o seu reflexo esse grupo de família digno do quadro majestoso que lhe servia de baixo-relevo. 

O fidalgo, Cecília e sua mãe, com os olhos no horizonte, recebiam esse último raio de despedida, e mandavam o adeus extremo à luz do dia, as montanhas que os cercavam, as árvores, aos campos, ao rio, a toda a natureza. 

Para eles esse sol era a imagem de sua vida; o ocaso era a sua hora derradeira: e as sombras da eternidade se estendiam já como as sombras da noite. 

Os Aimorés tinham voltado, depois do combate em que os aventureiros venderam caro a sua vida; e cada vez mais sequiosos de vingança, esperavam que anoitecesse para assaltar a casa. Certos desta vez que o inimigo extenuado não resistiria a um ataque violento, tinham tratado de destruir todos os meios que pudessem favorecer a fuga de um só dos brancos. 

Isto era fácil: além da escada de pedra, o rochedo formava um despenhadeiro por todos os lados; e só a árvore, que lançava os galhos sobre a cabana de Peri, oferecia um ponto de comunicação praticável para quem tivesse a agilidade e a força do índio. 

Os selvagens, que não queriam que lhes escapasse um só inimigo, e ainda menos que esse fosse Peri, abateram a árvore, e cortaram assim a única passagem por onde um homem poderia sair do rochedo, no momento do ataque. 

Ao primeiro golpe do machado de pedra sobre o grosso tronco do óleo, Peri estremeceu, e saltando sobre a sua clavina, ia despedaçar a cabeça do selvagem; mas sorriu-se, e encostou tranqüilamente a arma à parede. Sem inquietar-se com a destruição que faziam os Aimorés, continuou no seu trabalho interrompido, e acabou de torcer uma corda com os filamentos de uma das palmeiras que serviam de esteio à sua cabana. 

Ele tinha o seu plano: e para realizá-lo, começara por cortar as duas palmeiras e trazê-las para o quarto de Cecília; depois rachou uma das árvores, e durante toda a manhã ocupou-se em torcer essa longa corda, a que dava uma extraordinária importância. 

Quando Peri terminava a sua obra, ouviu o baque da árvore que tombava sobre o rochedo; chegou-se de novo à janela, e seu rosto exprimiu uma satisfação imensa. O óleo, cortado pela raiz, deitara-se sobre o precipício, elevando a uma grande altura os seus galhos seculares, mais frondosos e mais robustos do que uma árvore nova da floresta. 

Os Aimorés, tranqüilos por esse lado, continuaram nos seus preparativos para o combate que contavam dar durante as horas mortas da noite. 

Quando o sol desapareceu no horizonte e a luz do crepúsculo cedeu às trevas que envolviam a terra, Peri dirigiu-se à sala. 

Aires Gomes, sempre infatigável, guardava a porta do gabinete; D. Antônio de Mariz estava recostado na sua cadeira de espaldar; e Cecília, sentada sobre seus joelhos, recusava beber uma taça que seu pai lhe apresentava. 

— Bebe, minha Cecília, dizia o fidalgo; é um cordial que te fará muito bem. 

— De que serve, meu pai? Por uma hora, se tanto nos resta viver, não vale a pena! respondia a menina, sorrindo tristemente. 

— Tu te enganas! Ainda não estamos de todo perdidos. 

— Tendes alguma esperança? perguntou ela incrédula. 

— Sim, tenho uma esperança, e esta não me iludirá! respondeu D. Antônio, com um acento profundo. 

— Qual? Dizei-me! 

— És curiosa? replicou o fidalgo sorrindo. Pois só te direi se fizeres o que te peço. 

— Quereis que beta essa taça? 

— Sim 

Cecília tomou a taça das mãos de seu pai, e depois de beber, volveu para ele o seu olhar interrogador. 

— A esperança que eu tenho, minha filha, é que nenhum inimigo passara nunca do limiar daquela porta; podes crer na palavra de teu pai e dormir tranqüila. Deus vela sobre nos. Beijando a fronte pura da menina, ele ergueu-se, tomou-a nos seus braços, e recostando-a sobre a poltrona em que estivera sentado, saiu do gabinete e foi examinar o que se passava fora da casa. 

Peri, que tinha assistido a esse diálogo entre o pai e a filha, estava ocupado em procurar no gabinete vários objetos de que tinha necessidade aparentemente: 

Logo que achou quanto desejava, o índio encaminhou-se para a porta. 

— Onde vais? disse Cecília, que tinha acompanhado todos os seus movimentos. 

— Peri volta, senhora. 

(continua...)

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