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#Romances#Literatura Brasileira

O Moço Loiro

Por Joaquim Manuel de Macedo (1845)

— Como estou mudada! meu Deus!... eu causo medo!...

E, todavia, jamais Raquel poderia ter-se mostrado tão bela aos olhos de um jovem poeta!... ela tinha no seu rosto toda a sublime e interessante beleza da dor misteriosa.

Fugindo de seu toucador, Raquel foi de novo cair no leito, e outra vez entregou-se a seus tristes pensamentos; duas longas horas se haviam já passado assim nesse viver de eloqüente silêncio, apenas interrompido por suspiros, quando ela sentiu os apressados passos de alguém que para sua câmara se dirigia.

Raquel levantou-se prontamente e viu entrar seu pai, pálido e agitado.

— Meu pai, exclamou Raquel correndo para ele, o que sucede?...

— Uma desgraça, minha filha, um acontecimento fatal!

— Então o que é?...

— Amigos nossos que se acham perdidos!...

— Quem, meu pai, quem?

— Hugo de Mendonça... sua família inteira.

A desgraça de Hugo já era conhecida na praça; não se sabia quem espalhara a terrível notícia... fora talvez Otávio... ou talvez uma previsão, porque, assim como parece que às vezes o povo adivinha funestos acontecimentos políticos... ou se espalha em uma cidade a perda de uma batalha que longe se dá... sem se saber donde veio tal nova, ou quem a trouxe, assim também no comércio adivinham-se os apuros de um negociante, prevê-se uma quebra, conta-se com um infortúnio.

— Mas, meu pai, então o que há?... perguntou Raquel assustada.

— Uma quebra: a casa de Hugo vai cair; e sua família tombará na miséria.

— Oh! minha boa Honorina!... exclamou a moça com violenta expressão de sentimento. Jorge encarou com prazer indizível aquela dor aguda que sentia a filha pela desgraça de sua rival.

— Meu pai, disse Raquel, então há enormes dívidas?...

— Que sobem talvez a mais de cem contos de réis!

— E o Sr. Hugo não achará nenhum meio de salvar-se?...

— Se no mês que corre, pudesse conseguir a terça parte dessa quantia, ainda poderia sustentar-se por algum tempo... para cair mais tarde...

— E então?...

— Não haverá, portanto, quem se atreva a expor a uma perda quase certa tão avultada soma, indo oferecê-la a Hugo; e Hugo mesmo rejeitaria, porque conhece que não poderá pagá-la.

— O que lhe resta pois?...

— Ir, como um homem honrado, entregar tudo o que possui aos credores.

— Oh, minha boa Honorina! exclamou outra vez Raquel.

E, correndo para seu toucador, abriu uma gaveta, tirou dela seu cofre de jóias, que despejou sobre o leito; devorou, então, com os olhos os antigos e os novos e numerosos presentes de seu pai; contou um por um seus braceletes, adereços, brincos, bandós e flores de brilhantes; contou um por um todos os seus anéis, todas as suas jóias, enfim, e, depois, apontando com o dedo para a riqueza de seu toucador:

— Meu pai, disse ela, o valor de tudo isto?...

— É grande, sem dúvida muito elevado.

— Poderia chegar para salvar o Sr. Hugo de Mendonça de suas primeiras dificuldades?...

— Seguramente!... respondeu o velho, admirado.

Raquel caiu de joelhos aos pés de Jorge, e com lágrimas nos olhos, com voz comovida exclamou:

— Meu pai!... meu pai!... se me tem amor, permita que eu faça alguma coisa pela minha amiga!...

Havia na ação que praticava Raquel para salvar a sua própria rival, aquela que era amada pelo homem que ela amava; havia na dor dessa moça, no oferecimento de suas jóias um não sei quê de tão nobre, de tão grande e generoso, que Jorge pretendeu debalde falar... e começou a soluçar, chorando abraçado com o seu querido anjo. Porque Raquel tinha, na verdade, uma alma de anjo.

XXXVI

A cruz da família

O desconhecido e Félix saíram da casa de comércio de Hugo de Mendonça às sete horas e meia da noite, e, subindo ambos para uma sege, que esperava esse homem misterioso, que se nomeara simplesmente o moço loiro, foram caminho do bairro da Glória.

Segundo as ordens que recebeu, o boleeiro fez levar a sege a galope, e, deixando atrás de si diversas ruas tortuosas e feias da nossa cidade velha, e depois o Largo da Ajuda, o Passeio Público, o Largo da Lapa e o cais da Glória, entrou finalmente na rua diplomática, e foi parar exatamente defronte da casa de Hugo de Mendonça.

Toda a curta viagem se fizera em completo silêncio entre os dois; e só quando parou a sege, foi que o desconhecido, saltando para fora, e ajudando Félix a descer, disse-lhe, apontando para uma árvore frondosa, que ficava dentro do jardim, e a alguns passos da casa de Hugo: — Ali vou eu esperá-lo; no meu rosto poderá o senhor ler o propósito em que estou de me não deixar iludir; vá pois... cumpra o que prometeu, e receba o perdão de que carece.

(continua...)

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