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#Romances#Literatura Brasileira

Numa e a Ninfa

Por Lima Barreto (1911)

A sala era vasta, mas não pode conter todos os manifestantes. Uma grande parte ficou pela escada e pelo jardim.

Havia de toda a gente; pobres homens desempregados, que vinham ali ganhar uma espórtula; vagabundos notáveis, entusiastas sinceros, curiosos e agradecidos. Todas as cores. Os vestuários eram os mais engraçados e inesperados. Havia um preto com uma sobrecasaca cor de vinho, calçado com uma bota preta e outra amarela; um rapaz louro, um polaco do Paraná, com umas calças bicolor, uma perna preta e outra cinzenta; fraques antediluvianos, calças bombachas, outras a trair a origem reúna, coletes sarapintados.

Vendo essa gente miserável, esfaimada, degradada física e moralmente, o que se sentia era um imenso nojo pela política, pelo sufrágio universal, pelas Câmaras, pelos Tribunais, pelos Ministros, pelo Presidente, enfim, pela poderosa ilusão da Pátria, que criava, alimentava e se aproveitava de tamanha degradação

Toda essa gente comprimiu-se, arredaram-se os móveis e Canto Ribeiro começou a falar. Berrou vinte minutos, dizendo as mais sórdidas banalidades sobre o povo, a República, os méritos de Sofônias, etc.

Numa, que estava ao meu lado, ouvia-o atentamente e como que senti nele que havia uma ponta de inveja pela facúndia do orador.

Era conhecido como “silencioso” e, tendo recebido aquela intimação do chefe para discursar, não era difícil adivinhar o seu estado d’alma.

Havia no seu olhar muito espanto, muita admiração pela torrente de banalidades que Canto Ribeiro berrava; e, de onde em onde, como se adivinhava que Numa dizia com os seus botões: Ah! Se eu fosse como ele!

O tribuno deu por finda a arenga e Sofônias ia preparar-se para responder, quando uma moça saiu do meio das outras e começou a pronunciar um discurso.

Fiquei admirado, não muito do seu discurso, mas da sua elegância, do seu langor, da tração fortemente sexual que ela possuía. Ao meu lado, o genro de Neves Cogominho perguntou ao Bastos quem era:

— É a filha do Henocanti, a Clódia. Há muito que “cava” uma cadeira para o pai. O Castrioto podia já ter arranjado isso, mas está “cavando” a filha primeiro...

A moça falou ainda um pouco e, no olhar mortiço de Sofônias, ao influxo do capitoso da dama, houve um brilho desusado. Acabou de falar e ofereceu-lhe um bouquet de flores.

Sofônias respondeu a Canto Ribeiro, dizendo ser simplesmente como um “muezzin” da Catedral da República, cuja voz estava sempre pronta a lembrar aos fiéis os seus deveres para com a República; e à Clódia, que se enternecia por aquela homenagem da gentil patrícia, cujas belezas ofuscava as famosas Lucrécia Borgia e outras. Bastos não deixou de dizer baixinho ao colega:

— Esta é demais.

Por fim foi oferecido “chopps” aos circunstantes. Quase houve briga, quase houve bofetadas. As mãos passavam por cima das cabeças, por entre os corpos, e os copeiros tinham um imenso trabalho em servir toda aquela gente sequiosa. Canto Ribeiro vendo que a coisa podia degenerar em conflito, pois já havia um bate boca em um canto, resolveu levar o seu pessoal. Gritou:

— Vamos, rapazes! Os bondes vão partir!

Foram-se a um tempo e na sala, encostado ao balcão improvisado de “buffet”, ficou unicamente Barba-de-Bode. Encostou-se e disse com gloriosa satisfação:

— Sim, agora posso beber. Não sou desses “avançadores” que só vêm às festas para beber.

Em seguida, voltou-se para o copeiro e fez familiarmente:

— Ó amigo! Dá-me aí uma coisa dessas!

Sorveu o copo quase inteiramente de um trago, e foi cheio de loquacidade para os copeiros que disse:

— Vocês sabem, eu cá sou de casa. Não preciso de manifestação para entrar... O “homem” é meu só... Todos esses tipos são engrossadores.

Bebeu o resto que estava no copo, e pediu:

— Mais um “chopp”.

E continuou loquaz e jovial, jovialidade e loquacidade a que não era estranho o álcool que já engorgitara durante o dia todo. Continuou:

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