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#Crônicas#Literatura Brasileira

Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro

Por Joaquim Manuel de Macedo (1862)

O príncipe o Sr. D. Pedro, regente e depois primeiro Imperador do Brasil, o havia regenerado em 1821, sem poder, contudo, engrandecê-lo. O ministro do Império Lino Coutinho, em 1831, viera mudar-lhe a natureza e os fins, sem conseguir por esse meio resultados animadores. E o tempo acabava por demonstrar que a instituição não podia ir adiante.

Abandonar o seminário nessa agonia longa e cruel seria, além de uma impiedade inexplicável, um erro grave, que deixaria perder o rendimento dos patrimônios, que felizmente se conservava sempre. Reanimá-lo com as suas mesquinhas condições fora um cuidado que pouco proveito oferecia.

O ministro Bernardo Pereira de Vasconcelos, na regência do Sr. Pedro de Araújo Lima, atual marquês de Olinda, fazendo converter o seminário dos pobres órfãos de S. Joaquim em um grande colégio de instrução secundária, a que deu o nome de Imperial Colégio de Pedro II, realizou uma reforma digna dos maiores elogios e capaz de satisfazer todas as exigências do país.

Fez mais do que pudera fazer o Governo do príncipe regente o Sr. D. Pedro. Porque, salvando e mantendo a instituição, lhe deu um imenso desenvolvimento, criando um bacharelado em letras onde somente se conseguia aprender latim e cantochão. E emendou ou corrigiu o erro do ministro Lino Coutinho. Porque restabeleceu a instituição com a sua primitiva natureza e com fins, embora muito mais elevados, legítimos e próprios, correspondentes ao pensamento, que devia sempre ter dirigido aquele estabelecimento.

A data do decreto que criou o Imperial Colégio de Pedro II é, como já ficou dito, de 2 de dezembro de 1837, dia aniversário natalício de S. M. o Imperador. A inauguração, porém, do colégio somente foi efetuada a 25 de março do ano seguinte.

O tempo que correu entre 2 de dezembro de 1837 e 25 de março de 1838 foi empregado ativamente em melhorar e aumentar os cômodos da casa do antigo seminário de S. Joaquim, continuando as obras ainda depois por muitos meses, e tanto empenho mostrava o ministro Vasconcelos em vê-las acabadas, que, apesar de atarefado com as pastas ministeriais do Império e da Justiça, e com a direção da marcha política do gabinete de que era indubitavelmente o chefe, e apesar, enfim, da sua cruel paralisia dos membros superiores e inferiores, apresentava-se repetidas vezes no colégio, ativando os trabalhos com a sua presença e fazendo prontamente desaparecer as dificuldades que se opunham ao rápido desenvolvimento deles.

A 5 de fevereiro de 1858, foi nomeado o 1º prior do Imperial Colégio de Pedro II, e essa nomeação recaiu em D. frei Antônio de Arrábida, bispo de Anemúria. Os novos professores foram nomeados em abril do mesmo ano, tendo sido a 31 de janeiro publicado o regulamento contendo os estatutos do colégio, que compreenderam não menos de 239 artigos, marcando as funções do reitor, vice-reitor, professores e todos os empregados, estabelecendo o plano de estudos, dividindo o ensino em oito aulas ou anos letivos, em que se devia ensinar gramáti ca portuguesa, latim, grego, francês, inglês, geografia, história, retórica e poética, e filosofia. Matemáticas, compreendendo aritmética, álgebra, geometria, trigonometria e mecânica. Astronomia, História natural, compreendendo zoologia, botânica e mineralogia. Ciências físicas, compreendendo física e química. Desenho e música vocal. Especificando o enxoval dos alunos, as condições para o bacharelado, o regime econômico e tudo, enfim, quanto era de mister que fosse regulado.

Admira em verdade que neste plano de estudos fosse tão completamente esquecida a doutrina da nossa religião e a história sagrada. Mas julgou-se então suficiente incumbir nos estatutos ao capelão do colégio o cuidado de dar instrução religiosa aos alunos nos dias e horas que fossem marcados pelo Regimento Interno, e por fim de contas, se a organização do colégio ressentia-se de pouco religiosa, em compensação foram os eclesiásticos que tomaram logo o supremo Governo do estabelecimento.

Os primeiros professores nomeados foram: de história natural e ciências físicas, o Sr. Dr. Emílio Joaquim da Silva Maia; de história e geografia, o Sr. Dr. Justiniano José da Rocha; de grego e de retórica, o Sr. Dr. Joaquim Caetano da Silva; de inglês, Diogo Maze; de francês, Francisco Maria Piquet; de filosofia, o Sr. Dr. Domingos José Gonçalves Magalhães; de latim, o Sr. Jorge Furtado de Mendonça; de desenho, o Sr. Manuel de Araújo Porto Alegre; de música, o Sr. Januário da Silva Arvelos.

A simples menção dos nomes do reitor e dos professores com os quais se ia inaugurar o Imperial Colégio de Pedro II devia bastar para os primeiros fundamentos do crédito do estabelecimento. Porque, em geral eram os nomeados ou recomendáveis por sua capacidade já provada nas matérias que tinham de ensinar, ou por sua reconhecida ilustração, e alguns eram até com razão considerados notabilidades.

(continua...)

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