Por Joaquim Manuel de Macedo (1848)
– No fim do ano de 1822, a cidade do Rio de Janeiro vivia a vida do entusiasmo e das festas; a independência estava proclamada, os ferros coloniais tinham sido quebrados com desprezo; o congresso nacional, a assembléia constituinte ia em breve reunir-se, e trabalhar na execução da grande obra; levantar o majestoso monumento. O povo entusiasta da liberdade festejava a liberdade; os saraus seguiram-se uns aos outros; o prazer estava em toda a parte.
Mariana exalou, involuntariamente talvez, um suspiro de saudade.
– E no meio de mil formosas donzelas, que davam vida a essas festas, havia uma jovem senhora, uma moça que acabava de sair da infância, e que fazia o orgulho das sociedades e o martírio das outras moças.
Mariana sentiu apertar-se-lhe o coração.
– Era uma jovem extrema e perigosamente encantadora; era morena, tinha os cabelos e os olhos negros e brilhantes, e o rosto cheio de viveza e malícia, o pescoço garboso como o de um cisne. E toda ela era bem feita; formosa e bem feita, que arrebatava. E tinha um olhar magnífico, fixo e ardente como o do tigre, um sorrir meigo e carinhoso que enfeitiçava; uma voz harmoniosa e tocante, e, finalmente, um andar que provocava. Era uma mulher perigosa e terrível... era capaz de ser o anjo da salvação, ou o demônio da perdição de um homem. Essa mulher imensamente encantadora chamava-se Mariana.
E Mariana suspirou de novo.
– Objeto de todas as atenções, os mancebos a rodeavam e festejavam de mil modos; os pais davam parabéns ao pai da feliz moça; e as moças a invejavam; e as casadas tinham os olhos fitos em seus maridos por causa dela; e as mães a malqueriam por causa de suas filhas; porém Mariana, orgulhosa de seus encantos, passeava por entre aquelas senhoras, e por entre todos aqueles homens, como o sol que faz o seu giro no espaço, escurecendo as estrelas e espalhando sua luz por toda a parte.
E a viúva suspirou ainda uma vez.
– Ídolo de tantos, ídolo de todos os homens pelo menos, a indiferença de um era insulto para essa moça tão bela como vaidosa; era um insulto de que ela sabia vingar-se, trabalhando por prender maniatado ao seu carro o insolente que se esquecera de vir queimar incenso aos pés da princesa das festas. Essa moça queria escravos adoradores, e presunçosa aceitava todos esses cultos, concedendo às vezes um olhar a este, um sorriso àquele, uma palavra meiga àquele outro, mas não dando o seu amor a nenhum.
– Foi assim, murmurou a infeliz.
– Todavia apareceu nas sociedades um homem que não se lembrou e correr aos pés de Mariana, não era uma criança, nem um velho; ninguém lhe daria menos de vinte e seis anos nem mais de trinta; estava livre, tinha coração; e portanto devia pretender agradar à bela moça; esse homem não curou disso. Melancólico e abatido, sempre vestido de luto, parecia tão ocupado com suas mágoas passadas, que não tinha tempo de admirar a beleza do dia. Esse foi a princípio julgado uma fera bravia por Mariana, e portanto indigno de suas costumadas vinganças; depois, ela mudou de opinião; entendeu que era um montanhês mal-educado; depois acreditou-o insolente e orgulhoso; e depois...
– Provoquei-o!... balbuciou Mariana.
– Provocou-o, repetiu o velho. Leandro (era o nome desse homem) despertou às provocações da bela moça; viu... viu então, e observou pela vez primeira esse dilúvio de encantos e de graças, que a natureza tinha acumulado nessa mulher, e não pôde resistir à necessidade de admirá-la. O amor tinha algum tempo antes aberto no coração de Leandro profundas feridas, que ainda não haviam cicatrizado; e pois, ele fugiu de Mariana como de um perigo, de uma tentação, de um encanto insidioso.
– Ofendeu a minha vaidade!
– Sim, ofendeu a vaidade da mulher altiva; e ela jurou ser, a todo o custo, dona daquele coração. Desde o momento em que concebeu um tal propósito, Mariana esqueceu todos os seus antigos adoradores, e, sem o pensar, queimou incenso por sua vez aos pés de um homem...
– Amei-o!
– Sim; a vaidade de Mariana fé-la amar a Leandro. Todos os meios de sedução de que ela podia dispor foram postos em campo... o homem não resistiu; Mariana e Leandro amaram-se.
– Oh! foi assim mesmo!
– À primeira hora de declaração do amor, seguiram-se dias de embriaguez e de felicidade inconcebível, e seguiu-se uma noite de paixão delirante... de prazer feroz...
– Oh! basta.
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. Os Dois Amores. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2158 . Acesso em: 6 jan. 2026.