Por Joaquim Manuel de Macedo (1845)
O rosto de Raquel tornou-se rubro de vergonha; ela, que já amava, compreendeu, então, facilmente a verdade que Honorina exprimira a semelhante respeito: “é torpe! é um horrível sacrilégio negociar um homem com a desgraçada simpatia que lhe tributa uma mulher!... é torpe, é um horrível sacrilégio ir um homem ajoelhar-se aos pés do altar, receber a bênção do sacerdote, estendendo a mão para uma triste mulher, com os olhos no seu rosto e o pensamento no seu dinheiro”!...
— Honorina tinha bem razão!... murmurou ela baixinho.
Depois voltou-se resoluta para seu pai e disse:
— Meu pai, eu vou dizer-lhe tudo; a verdadeira causa de meus tormentos não está no amor, está no desespero.
— No desespero?...
— Eu não posso esperar ser amada.
— E por quê?...
— Eu não devo trabalhar para sê-lo.
— Mas qual a razão?...
— Tenho um único partido a seguir... chorar em segredo.
— É que eu não compreendo...
— Meu pai vai saber tudo.
Então Raquel passou a referir a Jorge todas as circunstâncias de seu amor; sem esquecer uma só delas, disse tudo; a amizade e confiança que merecia de sua amiga; o amor do moço loiro por ela; a cena passada em casa de Sara... tudo enfim.
Jorge escutou atento e admirado a estranha revelação que lhe fazia a filha; no fim dela, deixou-se ficar mudo, pensando no mísero estado de sua pobre Raquel, e na misteriosa existência desse moço, que podia mover tanto amor e tantas lágrimas.
— E então, meu pai?... perguntou Raquel tristemente.
— Tu tens razão, minha filha, respondeu Jorge abatido e frio.
— Posso eu esperar ser amada?...
— Não.
— Devo eu trabalhar para sê-lo?...
— Não.
— Não é verdade que o só partido que me resta a seguir é chorar em segredo?...
— É derramar tuas lágrimas no meu seio, minha filha!...
— Oh!... e é bem terrível ter de chorar sempre!...
— E quem te disse que hás de chorar sempre?...
— Mas se eu não tenho esperança alguma, meu pai!...
— Um amor desgraçado, minha filha, pode ser curado com outro amor mais feliz. Raquel, por única resposta, sacudiu a cabeça; ela tinha razão, um coração nobre não ama duas vezes.
— Raquel, continuou Jorge, é preciso amar a outro; desterra essa tristeza; vamos de novo aos saraus, às festas, às assembléias; na multidão dos mancebos, que lá se encontram, talvez um chegue a agradar-te. Qualquer que ele seja, contanto que a infâmia ou o desregramento o não manche, dize-mo... e rico ou pobre, pequeno ou grande, será teu esposo.
— Não haverá para mim outro como ele, meu pai. É melhor que eu fique como estou, chorando sem contrafazer-me a seus olhos, e derramando o meu pranto no seu seio, do que tenha de esconder minhas lágrimas de um marido que eu não ame, nem possa nunca amar.
— Raquel, disse Jorge, levantando-se para sair, eu te deixo; modera tua aflição ao menos por minha causa; e, quando tiveres necessidade de um companheiro para chorar e gemer contigo, vem para junto de teu pai!
Os dois se abraçaram de novo ternamente, e daí a um instante Raquel estava só.
Jorge tinha deixado sua filha senão menos desgraçada, todavia mais animada e capaz de resistir à crueza de seu destino; achar um companheiro para gemer conosco, para conosco falar do mal que sentimos, não é um remédio, mas é sempre uma consolação. Raquel tinha achado um companheiro em seu próprio pai.
Não que as últimas palavras que dele acabara de ouvir lhe desenhassem um fagueiro íris de esperança no horizonte de sua vida, não. Jorge havia dito que um amor desgraçado pode curarse com outro amor mais feliz; porém Raquel, que, devendo responder sempre com respeito a seu pai, sacudiu apenas negativamente a cabeça, repelia dentro de si semelhante idéia, como ofensiva à pureza de seu coração.
A bela jovem, que nunca amara antes de ver o moço loiro, até então tinha sua alma livre dessas impressões ardentes, como um vaso virgem e delicado, onde jamais se lançara nenhum líquido; o primeiro, que aí se depositasse, devia por força entranhar-se nos poros dele, e deixar para sempre arraigado seu perfume. O moço loiro apareceu... sua imagem preencheu um vácuo, que havia no coração de Raquel, sem que ela o pressentisse... tomou parte na sua vida... ficou senhor de seus pensamentos... ganhou, enfim, o amor de Raquel... o primeiro amor... o único verdadeiro e eterno.
Raquel ergueu-se, e pela primeira vez, depois de quinze dias, dirigiu-se para seu toucador; enfim, ela era mulher... queria ver como se achava o seu rosto... o seu tesouro... ela viu e recuou!...
O fogo de seus olhos estava quase extinto... fora substituído pelo langor da melancolia: as rosas de suas faces haviam murchado... desaparecido e cedido o seu lugar aos brancos jasmins do sofrimento; seus lábios não se amoldavam mais ao gracioso sorrir dos dias de ventura; o belo anjo do prazer se trocara pela sombra graciosa da saudade! Raquel recuou espantada de si própria, dizendo:
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. O moço loiro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2107 . Acesso em: 6 jan. 2026.