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#Romances#Literatura Brasileira

Numa e a Ninfa

Por Lima Barreto (1911)

Era um belo mulato escuro, forte e alto, de cabelos corridos, peito alto e ombros largos. Tinha uma fama de terrível e era muito procurado pelas eleições. Servia de guarda de corpo do Senador Sofônias e propagava a sua celebridade nas classes desafortunadas. Ao vê-lo, o Senador perguntou:

— Que há, Lucrécio?

— V. Exa. podia dar uma palavra em particular? — Fale!

O capanga hesitou um instante e falou afinal, com timidez:

— Procurei “seu” Bento, mas...

Esse Bento era uma espécie de mordomo do Senador, motivo pelo qual fora nomeado partidor do Distrito. Nos dias comuns, encarregava-se de fazer as encomendas dos gêneros alimentícios para Sofônias; nos extraordinários, organizava as manifestações, os vivas, as aclamações, a tanto por cabeça, quando a polícia não queria encarregar-se da coisa.

O Senador compreendeu o que Lucrécio queria:

— Dinheiro, não é?

— É, Exa. Arranjamos mais dez “partidários” de V. Exa. que querem vir, e V. Exa. sabe que...

O Senador falou com arrogância:

— Fale com a Lalá.

Correu à sala de jantar e eu o segui a observar. A esposa do Senador Sofônias, depois de dar o dinheiro a Lucrécio, voltou a conversar com as amigas.

— É mesmo uma maçada — fez ela ao chegar — A política, que coisa! Sofo mal ganha para gastar... Só de “champagne”, quanto? e o “chopp”? e os doces? Todo o mundo quer ser político; é porque não sabe quanto custa?

Madame Costale, esposa do Deputado Rodolfo Costale, aventou então:

— Tudo é assim, D. Lalá: visto de fora tudo é fácil, mas cá do lado de dentro é que são elas... O Rodolfo, só em “facadas”, gastou no ano passado cerca de três contos... Toda a gente pensa que os políticos ganham mundos e fundos... É um engano! Ganham, é verdade, mas gastam muito. E as subscrições?

— O que mais me aborrece — disse Madame Celeste Galvão, esposa do Deputado Galvão, futuro presidente do Estado de xxs — é essa gente que temos de receber... Que caras! Nem fazem a barba!... Não sou nenhuma rainha, mas suportar sujeitos tão mal vestidos... Qual! É demais.

A conversa demorou-se assim algum tempo e ia continuar quando se ouviram na rua os compassos da música militar que puxava a manifestação e todas aquelas senhoras dirigiram-se para a sala principal. No corredor ainda, D. Lalá pode dizer a Madame Galvão:

— Amanhã é que são elas! Copos furtados, “bibelots”, o jardim estragado... Qual! esta política!

E a banda repenicava um dobrado canalha a todos os pulmões, as lanternas venezianas, nas pontas das varas, dançavam; e parecia tudo uma longa cobra fosforescente e musical que rastejava para o palacete. A multidão vinha premida na estreita alameda principal do jardim

—Viva o senador Sofônias! Viva!

Por entre vivas foram entrando, e Sofônias, no fundo da sala, cercado dos amigos presentes, já esperava a manifestação com sua majestade de manequim e a sua cabeleira untada de óleo, a reluzir.

Na frente dos manifestantes, vinha o tribuno Canto Ribeiro, celebridade dos “meetings” e manifestações. Era um tipo da cidade, teimoso orador do Largo de São Francisco, cuja oratória consistia em berrar a todos os pulmões as mais gastas chapas do Orador Popular. E ele tinha uns pulmões valentes e cada berro seu retumbava pela praça toda e era ouvido em todos os cantos.

Era também empreiteiro de manifestações, e, como todo o empreiteiro que se preza, tinha o seu pessoal. Além de um núcleo forte de capangas, possuía a seu serviço moços limpos: estudantes, pequenos empregados, aspirantes a empregos — gente disposta ao vivório, iludida com promessas de empregos e promoções.

Havia em Canto Ribeiro um pouco de especulação e um pouco de sinceridade. Supondo-se orador, julgava-se com um alto destino político e não pejou de ser o orador de praça pública, para chegar aonde queria. Os meios...

A sua oratória era feita de berros, de mugidos e rugidos; e, além de qualquer apuro literário, faltava também a ela uma voz musical, numerosa, com inflexões. Ele só sabia berrar e, quando se cansava, guinchava.



(continua...)

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