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#Crônicas#Literatura Brasileira

Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro

Por Joaquim Manuel de Macedo (1862)

A realização desta idéia exigia prontos trabalhos na casa; e assim era preciso que a administração econômica do novo estabelecimento entrasse em exercício logo e antes de funcionar o colégio, que devia abrir as suas portas à mocidade estudiosa no ano seguinte, que era o de 1838.

O Governo nomeou, pois, um tesoureiro, entendendo que cumpria libertar a Câmara Municipal daquela administração alheia das atribuições dela.

Então, o vereador Filipe Ribeiro da Cunha exibiu na Câmara Municipal, nesse tempo presidida pelo atual conselheiro Francisco Gomes de Campos, as suas contas escrituradas com clareza, precisão e minuciosidade em um in-folio que deve se achar no respectivo arquivo e do qual se deprendia que haviam custado as obras feitas no seminário, inclusive a Casa nº 66 da Rua Estreita de S. Joaquim, casa em que depois habitaram os reitores do Imperial Colégio de Pedro II, para cima de cem contos de réis, e que ficavam no corpo da igreja cerca de dez contos de réis em materiais que se destinavam à conclusão do templo.

Filipe Ribeiro da Cunha tinha tomado amor ao seminário e interessava-se tanto pelo adiantamento das obras que fiscalizava, que por vezes não poupara a sua própria bolsa, ocupava-se dessa comissão como si de seus próprios negócios tratasse, e, segundo consta, causou-lhe um pesar profundo o ver passar a outrem o cuidado daquela administração.

Entendo que o Governo procedeu acertadamente tirando à Câmara Municipal uma tarefa que não lhe era própria. Pena foi, porém, que não se lembrasse de aproveitar uma vontade tão decidida e uma dedicação tão provada como a do vereador Filipe Ribeiro da Cunha, que pronto se mostraria a continuar a prestar bons serviços.

Termina aqui a história do seminário dos pobres órfãos de S.

Joaquim, e vai começar agora a do Imperial Colégio de Pedro II.

Mas por certo que incompleta eu deixaria aquela, se me esquecesse de dar conta do patrimônio dos pobres órfãos, patrimônio formado à custa de doações e de esmolas feitas determinadamente aos pobres órfãos, e não devidas ao Governo.

Esta informação é indispensável por duas razões.

Primeira, porque ela há de servir-me para base de uma argumentação que terei de apresentar.

Segunda, porque com a propriedade alheia e com o dinheiro dos outros não se brinca, e é preciso muita clareza a tal respeito.

Termino, pois, este passeio transcrevendo a nota seguinte, que oferece perfeito esclarecimento sobre o patrimônio de que falo.

Próprios do Imperial Colégio de Pedro II inventariados em 24 de outubro do ano de 1838, com seus valores e rendimentos.

Rua das Violas – Uma morada de casas de sobrado de duas janelas, nº 102. Está alugada a Gabriel José Gonçalves Pereira Bastos:

Rende por ano . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 96$000

Valor do prédio na razão de 5% (sobrado) . . . . . . . . . . . . . . 3:360$000

Loja do sobrado acima, alugada a Manuel Antônio da Silva:

Rende por ano . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 168$000

Seu valor na razão de 5% . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 1:920$000

Rua das Violas – Uma morada de casas de sobrado de duas janelas n° 104. Está alugada a Antônio Vieira de Sousa Meireles:

Rende por ano . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 168$000

Valor do prédio na razão de 5% (sobrado). . . . . . . . . . . . . 3:360$000 Loja do sobrado acima, alugada a José Paim:

Rende por ano . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 84$000

Seu valor na razão de 5% . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 1:600$000

Rua da Alfândega – Uma morada de casas térreas com o nº 309. Está alugada a Ventura Simões, preto forro:

Rende por ano . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 144$000

Valor do prédio na razão de 5% . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 2:880$000

Rua Estreita de S. Joaquim – Uma morada de casas de sobrado com cinco janelas de peitoril, e as lojas com três janelas e corredor separado, n° 66. Estão alugadas à condessa Sustrouvil:

Rende altos e baixos por ano . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 482$000

Valor do prédio na razão de 5% . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 8:640$000 Apólices entregues na recebedoria do município:

163 do valor de . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 1:000$000 cada uma 2 do valor de . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 400$000 cada uma

Já se vê que os pobres órfãos de S. Joaquim não eram ou não estavam tão pobres, como se podia supor.

IV

O antigo seminário dos pobres órfãos de S. Joaquim tinha chegado a uma situação tal em 1837 que, ou existia apenas em nome, ou se estava debatendo na extrema fatal da mais triste agonia.

(continua...)

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