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#Romances#Literatura Brasileira

O Moço Loiro

Por Joaquim Manuel de Macedo (1845)

Mas ao pé de Raquel, ao pé de sua angústia, vinha todos os dias sentar-se um ancião respeitável, que ficava horas inteiras triste... abatido... silencioso, olhando para ela. Era seu pai. Antiga e mútua confiança de Jorge e Raquel; aquela transparência do coração da filha para os olhos do pai, parecia haver desaparecido. Dantes jamais Raquel sentia um simples dissabor, do qual Jorge não conhecesse para logo a causa; dantes nunca a filha experimentava uma afeição inocente, ou tinha no espírito uma dúvida qualquer, que o pai não fosse buscado para orientá-la em ambas com os conselhos de sua experiência. E agora Raquel geme, e não vai pedir a Jorge um remédio para sua dor; e agora o pai ouve gemer a filha, e não a interroga sobre a origem de seus gemidos.

Oh!... era porque ela sabia que seu pai não acharia um remédio para dar-lhe; e porque ele tinha compreendido que já era tarde; que o mal de sua filha já não podia ser curado pelo amor e conselhos paternais.

Entretanto, Jorge cercava Raquel de cuidados e desvelos; e, vendo desprezadas todas as festas, todas as distrações que lhe oferecia, ao menos para ver se nela despertava os adormecidos caprichos de moça, não deixava passar um dia em que lhe não trouxesse novos enfeites, jóias custosas, e magníficos brilhantes.

E, todavia, Raquel era sempre a mesma, padecendo em silêncio, não movendo uma só queixa e passando a maior parte do dia abrigada na solidão de sua câmara.

Jorge se havia determinado mil vezes a exigir de Raquel a relação completa de seus sofrimentos; para isso entrava todos os dias no quarto dela; mas, vendo-a pálida e imóvel, sentada desleixadamente em seu leito, como esquecida de si própria, o pai não tinha ânimo de quebrar o silêncio da filha, de sondar aquele segredo doloroso, temendo ver redobrar tantos tormentos à menor pergunta; como certos pólipos, que se ensangüentam logo que são tocados, ele supunha aquela mudez semelhante à camada de cinza que envolve a brasa ardente... e, portanto, Jorge ficava defronte de Raquel horas inteiras, pensativo... melancólico... silencioso como ela mesma. O coração de Jorge devia, pois, estar também violentamente amargurado; um dia, enfim, ele se resolveu a penetrar a todo o custo o segredo de sua filha, e dirigiu-se para isso à câmara dela: foi na manhã em que Raquel tinha recebido o último bilhete de Honorina.

Jorge encontrou a triste moça na mesma posição e no mesmo estado em que

constantemente a achava. Como receando perder o ânimo, se olhasse para seu rosto, o pai sentouse, e, desviando os olhos do leito onde estava Raquel, disse:

— Minha filha, o que é isso?... o que tens?...

A moça levantou os olhos para seu pai; mas logo depois os abaixou, corando fortemente. — Outrora tu depositavas todos os teus inocentes segredos no meu seio; tu me fazias confidente de tuas passageiras tristezas, e longas alegrias; tu me dizias o que sentias; tudo o que pensavas; por que, pois, não continuas a praticar o mesmo?... já te fiz arrepender da doce confiança que em mim tinhas?... não sou sempre o teu amigo?... Raquel!... minha Raquel!... já deixei eu de ser pai?...

A triste senhora, ouvindo esta última pergunta de seu pai, feita com voz pungente e quase desesperada, saltou do leito, e, sufocada em soluços, soltando um dilúvio de lágrimas que presas estavam há muito tempo, caiu de joelhos aos pés de seu bom velho e abraçou-se com ele ternamente.

— Raquel!... minha Raquel!... não chores assim!... tem piedade de teu pobre pai!...

— Meu pai!... balbuciou a infeliz levantando-se nos braços de Jorge.

E os dois ficaram aí docemente abraçados... chorando ambos... misturando seu pranto de pai e de filha, que se combinava tão bem, quando bastantes lágrimas tinham corrido, e eles sentiram menos pesados os corações... sem corar de seus soluços... desatando-os sem tentar comprimi-los, sentaram-se defronte um do outro.

— Raquel, disse Jorge; eu sei que tu amas...

— Sim, meu pai, eu amo.

Pelo modo com que lhe respondeu sua filha, Jorge conheceu que tudo lhe ia ser relatado; que a mútua e antiga confiança se restabelecera.

— Pois, então, minha filha, continuou Jorge, por que esconder-me tanto tempo esse doce sentimento?... quem pode furtar-se a essa mimosa lei da natureza?... a escolha de teus olhos deverá ser por força digna de teu coração...

— Eu creio que sim, meu pai; é um moço nobre e destemido...

— Sabe ele que tu o amas?...

— Não, meu pai, nem o saberá nunca.

— Como não o saberá nunca, minha filha?... se tu o amas, se ele é digno de ti, poderei eu querer que chores assim toda a vida, que não sejas venturosa ao lado dele?...

— É porque meu pai não sabe que há uma barreira enorme, que para sempre me separa desse homem!...

— Seria possível, perguntou Jorge confuso, que minha filha amasse um homem casado?...

— Eu penso, com razão, que ele é solteiro.

— Que te falta pois?...

— O amor dele, respondeu amargamente Raquel.

— Raquel... não te faltam encantos.

— Meu pai, há outras mais belas do que eu.

— És rica...

(continua...)

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