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#Romances#Literatura Brasileira

Numa e a Ninfa

Por Lima Barreto (1911)

Dentre todos, aquele que dava maiores demonstrações de admiração e respeito a Sofônias era Brochado, não só porque era o mais falso, como queria apagar no espírito do grande chefe as picardias que lhe tinha feito.

Tratavam dos últimos acontecimentos políticos. O caso em questão era a formação de um novo Estado com territórios adjudicados por um recente tratado. O projeto era inofensivo, mas Sofônias queria aproveitá-lo para fazer uma demonstração e força ao governo. O procedimento do Presidente não lhe agradava; Simplício parecia não lhe querer obedecer e Sofônias temia que a sucessão presidencial lhe fosse desfavorável. Até agora, não se havia declarado francamente, mas empenhava os seus esclarecedores: os jornais e aqueles dos seus deputados que simulavam independência de pensamento. A imprensa do governo, conhecendo perfeitamente o jogo, não se animava a atacá-lo e a da oposição ajudava.

Alguém, no momento, referiu-se ao discurso terrível que, contra o formidável Sofônias, pronunciara o Albuquerque.

Costale, deputado, adiantou mesureiro:

— Frases! Frases! Retórica e mais nada!

Esse Costale, Raimundo Costale, tinha a mania do americano, do “yankee”, e a de que estava destinado a promover o soerguimento da agricultura no Brasil. A mania de “yankee” viera-lhe do gosto de raspar o bigode, moda muito pouco americana, e de ter passado uns meses nos Estados Unidos; e a de salvador da agricultura não se sabia bem donde vinha. É verdade que tinha uma fazenda, como toda gente, mas fazenda de recreio que não lhe dava lá grandes lucros, nem mesmo os comuns.

De fato era rico, mas dos rendimentos das fábricas de tecido que tinha e montara com o produto do caucionamento de títulos sem valor a um banco do Estado.

Foi, portanto, com o desprezo mais “yankee” que pronunciou:

— Frases! Frases! Retórica e mais nada!

Pieterzoon, um grande e grosso homem, gigantesco e desarticulado, holandês de origem, objetou:

— Não há de ser assim, dizendo frases, que vocês hão de desfazer a impressão que ele fez na opinião.

— Ora, a opinião! — comentou Numa. — A opinião somos nós que sabemos por que o Sales é a favor...

Ao que Brochado retrucou:

— Eu não tenho grande conta da opinião, quando sou governo. O povo se fabrica e quando não se fabrica, há chanfalho, bala e pata de cavalo; mas, quando não se está no poder, é preciso cativá-lo.

Sofônias ouvia um e outro com olhar distraído, aquele olhar torvo de agonizante, onde havia uma única e mortiça luz. Por fim, tirou uma fumaça, e disse:

— Não é assim também. Querem saber de uma coisa: eu tinha em casa uma vaca mansa que nem um cordeiro. Os meninos faziam dela o que queriam; montavam na rês, enfeitavam-lhe as pontas, punham-na na carroça. Um belo dia, tanto fizeram que ela se encheu de zanga e deu uma marrada num, quebrando-lhe o braço. É verdade que a matei — rematou com satisfação Sofônias.

Como agora, gostava de afetar liberalismo, tolerância, quando o seu fundo era de déspota, de tirano, de cacique; em presença daquela gente toda, sentindo ao seu redor uma grande cidade mais ou menos civilizada, procurava esconder o seu natural; e, obedecendo a essa ordem de sentimentos, aconselhou que alguém respondesse ao Sales e adiantou mesmo:

— Era bom que um de vocês falasse... Por que você não fala, Numa?

Havia nesse convite um pequeno plano. Sofônias temia que o Neves Cogominho se bandeasse e dessa maneira descobriria logo os seus planos. Se Numa falasse, o homem e a sua gente estavam presos; se não, as baterias ficariam descobertas.

Numa quis fazer ainda algumas objeções, mas, no instante, entrou alguém que propriamente não era da Câmara ou do Senado, era, porém, da política, e de quem já tratei, devendo-lhe até a apresentação a Sofônias.

Chamava-se Lucrécio da Costa, mas com as suas façanhas ganhara o nome de “Barba-de-Bode”. Carpinteiro de profissão, depois de alguns assassinatos, julgara mais rendoso fazer-se capanga político.



(continua...)

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