Por Aluísio Azevedo (1897)
"Foi o meu único amor em toda a vida. Jamais em delírio de sentidos, paixão, esquecimento de tudo, alma e carne se fundiram numa só lava de desejo insaciável e ardente, como com as nossas sucedeu para sempre nessa noite imensa, misteriosa, revolta e sombria como um oceano maldito.
"Fugimos as duas para a Europa.
"O pai de Laura morreu de desgosto.
"E para nós outras se abriu uma estranha vida de delícias trancendentais e cruéis. Primaveramos em Nice e fomos de verão a Paris. O velho mundo, sistematicamente orgíaco, nos era indiferente e banal. Vivíamos uma para a outra.
"Laura, porém, ao declinar do estio, começou a sofrer. As violetas dos seus olhos, mais doces que as estrelas do Adriático, iamse fanando e amortecendo; vinhamlhe às faces sinistras manchas corderosa, e, aos primeiros crepúsculos do outono, todo o seu mimoso corpo de flor impúbere caiu a definhar, pendido para a terra.
"Eu passava os dias e as noites ao lado dela, numa vigília de beijos angustiosos, em que o meu amor libava dos seus lábios murchos a derradeira essência.
"Prazer horrível! Quantas vezes não imaginei que naqueles nossos sombrios êxtases, ia beberlhe o último alento? mas em vão tentava a morte intimidarme, rondandonos as carícias e disputando da minha boca a doce e cobiçada presa; mais forte do que ela, era a sangüínea onda do desejo que nos arrebatava, num só vulcão de fogo, aos páramos do supremo delírio da carne.
"Laura voltava sempre estarrecida e chorosa desses fatais arrancos dos sentidos. Eu bebialhe as lágrimas. "Uma noite, ergueuse a meio na cama, e fitoume estranhamente. Tinha os olhos em sobressalto, a boca desvairada.
"— Laura! exclamei, sacudindoa nos meus braços.
"Ela conservouse imóvel.
Laura! minha Laura! não me atende? é a tua Ambrosina que te fala! Ouve! escuta, meu amor, minha vida!
"E cobrialhe o trêmulo corpo de aflitivos beijos.
"Laura, porém, continuava estática e de olhos fitos nos meus. Afinal levantouse sobre os joelhos, volveu a cabeça vagarosamente de um para outro lado, e depois, soerguendo o seu débil braço de virgem, a apontar à toa na inspiração do delírio que a arrebatava para os meus remotos devaneios da puerícia, disseme com a voz comovida e quase extinta:
"— Não ouves?..
"— O quê?!
"— O som longínquo dos tambores...
"— Minha Laura!
"— É Bonaparte que reúne os seus soldados para a guerra... Não vês além esfervilhar aceso o oceano de baionetas?... Olha! vão baterse! Agitamse por toda a parte as águias vitoriosas! multidão saúdao grande corso! Ele agora passa em revista as tropas, montado no seu cavalo branco... Fervem gritos de entusiasmo, clarins ressoam, atroa os ares o rufo dos tambores! Oficiais, refulgentes de ouro, galopam sobre os rastros do meu Imperador. Como vai belo! Da palidez da sua fronte e da sombra de seus olhos transparecem fulgurações divinas. O seu sorriso É um clarão de glória... Eilos que partem! Já mal se avista o fuzilar das armas e mal se ouvem trovejar os tambores. É a tempestade que se afasta para rebentar além. Rompeu o fogo! Estão em plena batalha! A pólvora os embebeda numa nuvem de fumo. Ninguém mais se entende! Chocamse os esquadrões, retinem os ferros, ronca a metralha! Avante! Avante!
"E Laura, de pescoço estendido, a boca aberta, o olhar disparado em flecha, deixouse cair sobre as mãos, numa atitude de esfinge, e murmurou, apenas percetivelmente:
''— Viva Napoleão
"E, num estranho chorar de morta, começaramlhe as lágrimas a escorrer dos olhos pelas faces emurchecidas, sem um soluço, nem um gemido.
"— Laura chamei, tomandoa nos meus braços.
"Ela deixou pender molemente a cabeça sobre meu ombro, estirou os membros, e um extremo suspiro lhe fugiu do peito.
"Já não vivia.
"Apodereime dela então, louca, sem consciência de mim (Ainda era tão formosa!) e colei meu lábios aos seus amortecidos, e enlaceia toda fria contra o meu colo ardente, bebendo o derradeiro calor daquele idolatrado corpo já sem vida.
"E foi a última vez que amei... para sempre!"
— Vês tu? interrogou Ambrosina, entre sorrindo e triste, quando Gustavo fechou o livro; para sempre!...
Ele demorouse um instante a contemplar, muito abstrato, a capa do manuscrito; depois, como se despertasse, o restituiu à dona, e foi buscar o chapéu e a bengala.
— Adeus... disse.
— Para onde te atiras? indagou ela.
— Não sei...
— E quando voltas?
— Nunca mais...
— Hein? Nunca mais?!
— Sim. Adeus.
Houve um silêncio, durante o qual o desgraçado em vão esperou que a amante lhe cortasse a retirada com uma carga de carícias; Ambrosina não se moveu do divã em que estava, e murmurou afinal, de olhos meio cerrados:
— Pois adeus...
Gustavo despejouse para a rua, levando a morte no coração. Dizialhe no íntimo um sinistro pressentimento que desta vez não iria a caprichosa, como das outras, desencoválo donde se escondesse ele, para o reconduzir, escoltado de beijos, ao seu delicioso presídio.
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio. A Condessa Vésper. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2124 . Acesso em: 8 mar. 2026.