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#Romances#Literatura Brasileira

O Guarani

Por José de Alencar (1857)

Entretanto o valente cavalheiro continuava a fazer prodígios de valor e de coragem; cada volta que descrevia sua espada era um inimigo de menos, uma vida que se extinguia a seus pés num rio de sangue. Os selvagens redobravam de furor contra ele, e cada vez o seu braço ágil movia-se com mais segurança e mais certeza, fazendo jogar como um raio a lamina de aço que mal se via brilhar nas suas rápidas evoluções. 

Desde porém que os Aimorés viram o moço sem defesa pelas costas, e exposto aos seus golpes, concentraram-se nesse ponto; um deles adiantando-se, ergueu com as duas mãos a pesada tangapema e atirou-a ao alto da cabeça de Álvaro. 

O moço caiu; mas na sua queda a espada descreveu ainda um semi-círculo e abateu o inimigo que o tinha ferido à traição; a dor violenta dera a esse último golpe uma força sobrenatural. 

Quando os índios iam precipitar-se sobre o cavalheiro, Peri saltou no meio deles, e agarrando a espingarda que estava a seus pés, fez dela uma arma terrível uma clava formidável, cujo poder em breve sentiram os Aimorés. Apenas se viu livre do turbilhão dos inimigos, o índio tomou Álvaro nos seus ombros, e abrindo caminho com a sua arma temível, lançou-se pela floresta e desapareceu.  

Alguns o seguiram; mas Peri voltou-se e fê-los arrepender-se de sua ousadia; livrando-se do peso que levava, carregou a espingarda com as munições que Álvaro trazia e mandou uma bala àquele que o perseguia mais de perto; os outros, que já o conheciam pelo combate da véspera, retrocederam.  

A idéia de Peri era salvar Álvaro, não só pela amizade que lhe tinha, como por causa de Cecília, que ele supunha amar o cavalheiro; vendo porém que o corpo continuava inanimado, acreditou que Álvaro estava morto. 

Apesar disto não desistiu do seu propósito; morto ou vivo devia levá-lo àqueles que o amavam, ou para o restituírem à vida, ou para derramarem sobre o seu corpo o pranto da despedida. 

Quando Peri acabou a sua narração, o fidalgo comovido chegou-se à beira do sofá, e apertando a mão gelada e fria do cavalheiro, disse: 

— Até logo, bravo e valente amigo; até logo! A nossa separação é de poucos instantes; breve nos reuniremos na mansão dos justos onde deveis estar, e onde espero que Deus me concederá a graça de entrar. 

Cecília deu à memória do moço as ultimas lágrimas; e ajoelhando aos pés do moribundo com sua mãe, dirigiu ao céu uma prece ardente. 

D. Lauriana tinha esgotado todos os recursos dessa medicina doméstica que no interior das casas substituía a falta dos homens profissionais, muito raros naquela época, e sobretudo longe das cidades; o moço não deu porém o menor sinal de vida. 

D. Antônio de Mariz, que compreendera perfeitamente o que devia esperar da pretendida retirada dos Aimorés, mandou que os seus homens se preparassem para a defesa, não que tivesse a menor esperança, mas porque desejava resistir ate o último momento. 

Peri, depois de ter respondido a todas as perguntas de Cecília a respeito do modo por que se havia salvado do veneno, saiu da sala e percorreu a esplanada, observando os arredores. O índio, infatigável sempre que se tratava de sua senhora, apenas acabava de uma empresa gigantesca, como a que o tinha levado ao campo dos Aimorés, cuidava já em combinar outro projeto para salvar Cecília. 

Depois do seu exame estratégico, entrou no quarto que havia abandonado na antevéspera, e no qual encontrou ainda as suas armas, do mesmo modo que as tinha deixado. 

Lembrou-se do pedido que fizera a Álvaro, da contradição do destino que lhe restituía a vida a ele, um homem três vezes morto, e roubava-a ao cavalheiro a quem ele havia deixado são e salvo. 


VIII 

NOIVA 

 

Uma hora depois dos acontecimentos que acabamos de narrar, Peri, recostado à janela do quarto que tinha pertencido a sua senhora, olhava com uma grande atenção para uma árvore que se elevava a algumas braças de distancia. 

Seu olhar parecia estudar as curvas dos galhos retorcidos, medindo-lhes a distancia, a altura e o tamanho, como se disso dependesse a solução de uma grande dificuldade com que lutava o seu espírito. No momento em que estava todo entregue a esse exame minucioso, o índio sentiu uma mão tímida e delicada tocar-lhe de leve no ombro. 

Voltou-se: era Isabel que estava junto dele, e que se havia aproximado como uma sombra, sem fazer o menor rumor. Uma palidez mortal cobria as feições da moça, que apenas sala do seu desmaio; mas o rosto tinha uma calma ou antes uma imobilidade que assustava. 

Voltando a si, Isabel correu um olhar pelo aposento, como para certificar-se de que não era um sonho o que havia passado. 

(continua...)

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