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#Romances#Literatura Brasileira

O Moço Loiro

Por Joaquim Manuel de Macedo (1845)

Os que dizem que o tempo faz esquecer um amor não retribuído, não fazem mais do que repetir uma blasfêmia que ouviram; e o primeiro homem que o disse, o blasfemo, pensou ter amado sem que verdadeiramente amasse; e, quando procurou o amor, e achou vazio o coração, julgou que o tempo o tinha extinguido, semelhante àquele que, despertando de um sonho, buscasse a seu lado o objeto com que sonhava. Ama-se uma só vez na vida; e esse amor, o verdadeiro, é aroma do coração, que nunca se evapora de todo; é chama do espírito que nem se extingue, nem se abranda.

E, pois, o amor sem esperança é o martírio extremo da alma; é a dor terrível... inexplicável... incurável... eterna.

Aquele a quem morreu a formosa amada, sofre muito... muito; mas ainda sofre menos que o amante infeliz; porque na vida de lágrimas, que vive, tem a lembrança do amor que gozou; soam a seus ouvidos as doces palavras que ouviu; tem a saudade com sua agridoçura tão maviosa; tem o espírito repleto de imagens e de recordações; tem o coração cheio de vida de lágrimas...

Mas quem ama sem esperança, não tem nada no mundo... tudo é feio... estéril... negro; ontem... hoje... amanhã... sempre tudo feio... estéril... negro: ou então tem diante de seus olhos a beleza da mulher insensível, fazendo o seu cruel martírio; tem a felicidade dos outros risonha e galante defronte de sua desgraça carrancuda e feia; tem a vida dos outros desenhada em alegre painel ao pé de seu quadro de horrores; tem tudo belo fora... longe... alheio... dos outros; e tem em si somente a noite na alma... a morte no coração.

E ainda neste, como em todos os sofrimentos morais, experimenta a mulher dor mais desabrida que o homem; porque, principalmente no martírio de que falamos, além da dor, que é comum a ambos os sexos, e que provém do ardor desse desejo de ser amado e da impossibilidade de realizá-lo, da murchidão dessa esperança de amor, sem a qual não há felicidade possível, há demais, e em particular para a mulher, um golpe profundo em seu amor-próprio, há o sopro frio, glacial, saído da boca de um homem, apagando no rosto dela a luz de seu prazer e de sua glória... o anelo de agradar.

Mas é preciso ser mulher, ou ter ouvido falar a uma com a verdade com que se fala de joelhos aos pés de um padre, para conceber o penetrante segredo desse golpe!... é preciso, sim, para que se possa compreender o quanto sofre a mulher quando está vendo pisar... retalhar... moer... extinguir sua ambição de ser amada... sua interessante e perdoável vaidade!...

Havia, portanto, uma aflição ainda mais acerba do que aquela que consumia Honorina; porque a filha de Hugo de Mendonça não tinha sentido murchar a flor mais perfumada e bela de sua alma de mulher — a esperança de agradar ao homem amado.

E essa aflição desmedida... extrema... a estava provando uma moça cheia de encantos e de virtude... Raquel.

Honorina, pois, era, apesar da posição cruel em que se via, menos desgraçada do que a sua amiga; porque no rosto dela não, e no rosto desta sim, o sopro frio, glacial, saído da boca de um homem, apagara já a luz do prazer e da glória da mulher.

Como, porém, o amor de Raquel não é para nós um mistério; como a angélica alma dessa moça nos foi já uma vez patente, e aí lemos a relação de seu padecer e sua abnegação, a história do afeto que sentia pelo moço loiro, e da amizade que votava a Honorina, nós nos forramos do trabalho de desenvolver a mesma matéria.

Raquel continuava a viver em sua silenciosa agonia; suportava uma a uma todas as suas torturas sem soltar um único gemido; no entanto, fazendo sempre votos pela ventura de sua amiga, fugia de encontrar-se com ela, para não aumentar suas mágoas; e estava sempre só ou com seu pai.

Na corrente de suas intermináveis reflexões, levada da força de seu muito e tão longo padecer, Raquel pensava às vezes que era vítima de um castigo do céu por haver outrora desrespeitado o grande sentimento que vivifica a natureza; ela se recordava, então, quase horrorizada de si própria, daquele pensamento de gelo, que em uma noite ousara exprimir, dizendo: “amor é uma vã mentira! amor não é mais que uma das muitas quimeras com que a fantasia nos entretém na vida, como a boneca que se dá à criança para conservá-la quieta no berço... o amor não é mais que a flor de um só dia, que abre de manhã e antes da noite está murcha...”; e também, então, sorrindo-se com irônico e terrível sorrir, ela dizia a si mesma: pois bem!... eis aqui no meu coração a mentira... a quimera... a flor de poucas horas!...

(continua...)

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