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#Romances#Literatura Brasileira

A Mortalha de Alzira

Por Aluísio Azevedo (1891)

— Sim, mas só cousas sagradas... biografias de santos, anedotas religiosas e dissertações espirituais... Ora, sucedeu por acaso que essa mísera criança, que o mesmo acaso atirou às mãos do padre Ozéas. dispusesse das mais valentes faculdades mentais, e, não conhecendo ela outro meio além daquele em que vegetou, e, não tendo outro pasto para seu espírito além da doutrina cristã e da manhosa teologia, deu-se todo inteiro a estas duas estéreis e sedutores senhoras, e no fim de contas apresentou escandalosamente aquele imprevisto tipo, que fez as nossas delícias da corte na quinta-feira passada.

— Ah! disse o conde de Saint-Malô; não há dúvida, porém, de que ele tem muito talento oratório; é uma capacidade em matéria de religião...

— Qual! desdisse o materialista em ar de pouca importância. Acho que aquele pobre moço é mais uma inteligência aproveitável que se perde, e mais um infeliz doente que ganham os hospitais!

— E por quê?... exclamou Alzira vivamente.

— Ora! desdenhou aquele. Porque toda a sua ciência, se é que ele a tem, baseia-se nos mais falsos princípios. A sua filosofia é bonita, não há dúvida, mas completamente inútil. Não passará nunca de um metafísico. Construiu o seu edifício intelectual sobre areia movediça; e no dia em que o primeiro sopro quente de vida real cair-lhe em cima, lá se irá por terra a igrejinha! No dia em que a natureza, indefectível nas suas leis, o chamar friamente à verdade das cousas e exigir que ele cumpra com o seu destino fisiológico de homem, o seu próprio talento há de revolucionar-se com o seu sangue, e ele terá de abrir guerra aos falsos e arbitrários princípios em que o educaram. E então, o desespero e a decepção daquela pobre vítima do visionário Ozéas. serão tamanhos e tão fortes, que o desgraçado talvez não tenha forças para resistir ao golpe!

Alzira estremeceu.

— Infeliz... balbuciou ela.

Artur Bouvier tinha-se aproximado do Dr. Cobalt, e disse-lhe pousando-lhe a mão no ombro:

— Pode ficar tranqüilo, meu amigo, que o inocente Ângelo não conservará por muito tempo as suas penugens de anjo. A questão foi pôr o nariz à primeira vez fora do convento, ainda que para pregar sermão; respirou este ar de Paris, está pronto! Um átomo desta complicada atmosfera, composta da exalação de todos os luxos e de todas as misérias, de todas as febres e de todas as paixões, é o bastante para revolucionar-lhe o espírito e corromper-lhe o corpo até à medula. Além de que, o rei, com certeza, já o tem de olho, e não deixara escapar uma jóia tão rara; é natural que a cobice para a sua corte. Não dou muito tempo para vermos o tal santinho de olhos bonitos entrando para o quadro da capela real, com uma boa sinecura e um bom ordenado que lhe chegue para ter carruagem e para pagar uma gentil preceptora, encarregada de completar-lhe a educação. E juro-lhe que essa terá tanta paciência e tanta solicitude, quanta teve o santarrão do velho Ozéas. mas para lhe ensinar aquilo justamente que este lhe não quis velar...

— E não será difícil encontrar quem se queira encarregar de completar-lhe a educação.. observou Sofia; porque, segundo a opinião geral, o tal anjo de pureza é notavelmente simpático...

— Sim, tornou Cobalt, mas para isso era preciso que o "Santarrão", como disse aqui o nosso Bouvier, não estivesse de olhos bem abertos.

— Ora! opôs Margarida por detrás do seu leque; o velho Ozéas tem mais de setenta anos! Já deve estar com a vista curta...

— E as pernas trôpegas... acrescentou Gabriela.

— E não viverá eternamente... completou Sofia. Se o santinho não tiver por si outra guarda, pode ir desde já rezando por alma da sua virginal capela!...

— Sim! apoiou o conde. Não há dúvida que está aí, está cantando a primeira missa e entrando logo em seguida para a capela real. E há de fazer carreira!

— Pois engana-se, caro conde, acudiu o doutor; engana-se redondamente. Ângelo não entrará para o quadro da capela real, posto que o rei já o convidasse. O velho Ozéas. tenciona carregar com ele para Roma, depois para Jerusalém, com o fim de alargar-lhe quanto possível o cabedal das suas luzes; e, quando o rapaz estiver bem homem, bem forte, completamente desenvolvido, então o velho Ozéas o atirará sobre Paris, opondo o discípulo como um terrível protesto vivo contra a grande e desenfreada decadência moral dos nossos tempos. Conta que a luta se travará um dia afinal, tremenda e sem tréguas. De um lado, o invencível apóstolo, fechado na armadura da sua virtude e armado até aos dentes com a sua sabedoria divina; do outro lado, Paris, Paris friamente inabalável nos seus vícios e na sua libertinagem, Paris crápula, Paris abjeção, Paris lodo!

— Ah! essa luta há de ser fatal! disse Artur Bouvier no meio do silencio dos outros.

(continua...)

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