Por Aluísio Azevedo (1897)
— Ainda assim, acrescentou o criado; o que às vezes a consolava era a companhia do menino, mas este foi para o colégio, e...
Gaspar não se animava a dar mais uma palavra; enfim perguntou:
— E ela ama muito essa criança?
— Se ama o filho? Oh! meu amo, adorao! E a graça é que o diabinho se parece deveras com ela e com vossemecê!... é como se o estivesse a ver neste momento, com aquela cabecinha muito redonda, os olhos muito pestanudos e os beiços muito vermelhos, a dizerme:
"Jacó! Jacó! olha que te bato!" E corria a baterme nas pernas com a mãozinha fechada!
E o velho, disse ainda, a limpar uma lágrima:
— Que bela criança!... Não se ria vossemecê destas cousas, mas é que a gente, quando vai ficando inútil, como eu, toma um não sei quê pelas crianças, que é mesmo uma esquisitice! Ficase tolo, babão, por aqueles diabinhos!...
— Você não tem algum neto, Jacó?
— Qual, meu senhor! essa fortuna não é para este pobre velho; o meu Ernesto morreu aos quinze anos, e depois disso não tive mais parentes, nem felicidade completa...
E o desgraçado chorava.
— Está bom! está bom! atalhou Gaspar; deixemonos de recordações penosas e vá arranjarme charutos.
O criado saiu, vergando sob os seus sessenta anos e arrastando pacificamente os seus sapatões de bezerro, engraxado. O filho do coronel reparou então que havia na saleta uma biblioteca; colheu um Espronceda e leu distraidamente alguns versos. O velho voltou com os charutos, e perguntou se o amo queria jantar mesmo no quarto ou se resolvia a passar ao "comedor".
— Diga à senhora que faça como melhor entender, respondeu ele.
— D. Violante já está à mesa e conta que meu amo lhe fará companhia.
— Nesse caso, irei.
E Gaspar, sem saber por que, teve uma alegriazinha com descobrir que a sua misteriosa feiticeira se chamava Violante.
A sala de jantar era pequenita, alegre; paredes guarnecidas de aquarelas espanholas. Havia distinção no gosto que presidia à escolha dos móveis, e um certo perfume artístico na disposição dos bronzes e dos cristais. Sentiase logo que ali palpitava um espírito caprichoso e romanesco.
Gaspar, mal entrou, correu a apertar a mão da sua benfeitora; e ela, sorrindo, felicitouo pelo seu completo restabelecimento.
— Só à senhora o devo, que foi o meu bom anjo; e acho tão delicioso este sonho, que receio acordar...
— Acordará quando eu lhe disser francamente a situação em que nos achamos... Mas desde já o previno de que tenho um grande favor a pedirlhe...
— Será minha maior ventura! Desde já...
— Não prometa ainda, porque a cousa é muito mais séria do que o senhor se persuade...
— Estou convencido, todavia, de que a senhora não exigirá que eu cometa algum crime ou alguma infâmia!...
— Quem sabe lá?... disse preocupada a bela mulher.
— Sei eu! aposto, arrisco tudo! Desde já prometo cumprir as suas ordens com a submissão de um escravo.
— O senhor é casado?...
— Não, minha senhora.
— Bem! então tudo se poderá arranjar... O senhor vai passar por meu marido.
— Como?...
— Daqui a pouco saberá. Jantemos primeiro, teremos depois tempo para conversar.
V
REFLUXO DO PASSADO
Correu muito agradável o jantar. A mesa era pequena e punha os dois em confidêncial intimidade.
Violante mantinha a palestra com a sedutora volubilidade das mulheres que sabem esconder o pensamento com a palavra, falando para não dizer o que lhes convém calar; e ele, enquanto a caprichosa tecia e destecia as no nadas da conversação, ia reparando bem para a cor dos olhos dela, para as violetas das suas pálpebras, para a formosura da sua boca e para aquele moreno pálido e fresco, que é nas raças espanholas um luminoso e fugitivo reflexo do Oriente.
E os olhares sôfregos do rapaz insinuavamse pelas sutilezas daquelas deliciosas formas de mulher, serpeandolhes por entre as curvas da garganta e por entre as macias ondulações do colo, a tatear os menores acidentes da divina argila, e adormecendo embriagados de volúpia à sombra embalsamada dos cabelos negros; para logo acordarem e de novo se porem a subir de rastros pela doce curvilineação das espáduas, e deixaremse depois rolar pela encosta dos quadris ou pelo branco despenhadeiro dos braços nus.
E sem querer, e sem poder conterse, Gaspar imaginava como não seria o contato real de tudo aquilo! Que delírios não havia de se esconder num beijo as endiabradas covinhas daqueles cotovelos corderosa!...
— Então, o senhor não janta, nem conversa! disselhe Violante a rir. Há boas horas que me olha com duas brasas!...
E a formosa oriental estendeu a mão ao hóspede, pedindolhe que lhe passasse um pêssego.
— A mão! exclamou ele, tomando no ar a mão de Violante. Oh! como é bela!
E ficou a contemplála, a enluvála com um olhar de êxtase.
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio. A Condessa Vésper. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2124 . Acesso em: 8 mar. 2026.