Por Machado de Assis (1886)
Meu caro amigo. Dentro de pouco estarei aí e então para nunca mais fazer viagem alguma.
Nunca lhe disse que havia em minha vida alguns desgostos a respeito dos quais nunca procurava conversar? Pois saiba que um deles foi o que me trouxe cá. Ficou-me de minha mulher um filho a quem eduquei com desvelo paternal. Prometia ser até à idade dos quinze anos um modelo de retidão e de sisudez. Más companhias o perderam. Tendo chegado a uma certa idade em que o olhar paterno não podia segui-lo em toda a parte, o rapaz esqueceu as lições que eu tanto lhe ensinei e deixou-se levar pela torrente da rapaziada.
De perdição em perdição este filho chegou a sair-me de casa e a desconhecer até a minha autoridade.
Separamo-nos.
Ora, imagine que tive ultimamente um sonho e que se me afigurou ver o rapaz contrito e morigerado pedir-me a bênção paternal.
Não hesitei um momento. Vim ter ao lugar onde em natural encontrá-lo e vi a realidade do meu sonho...
Lá vou ter dentro de poucos dias. Esperem aí o velho amigo. Davi.
Conforme dizia a carta, apareceu no fim de pouco tempo o nosso poeta. O sinal da chegada de Davi foi a presença de Diógenes na horta de Vicente. O cão acompanhara o senhor.
Sabendo da presença do vizinho, Vicente lá foi ter e abraçá-lo; contou-lhe o que sofrera, os perigos de que escapara e até os atos de dedicação e amor da parte de Emília. E, concluindo a narrativa, disse Vicente:
— Enfim... já é para agradecer que me salvasse e esteja aqui livre de tudo, disposto a recomeçar os meus trabalhos... Mas, então, encontrou seu filho?
— É verdade, respondeu Davi.
— Foi um verdadeiro achado... não?
— Um achado sublime. Achei-o corrigido pelo tempo e pelas desgraças. O cadinho serviu; antes era um peralta; agora é um homem de bem.
— Ora, deixe-me abraçá-lo...
— Abrace-me... abrace-me. E a menina?
— Está boa...
— Mais alegre?...
— Vai vivendo...
— Pois eu lá hei de ir hoje... Crê que ela terá prazer em ver-me?
— Por que não?
Os dois velhos separaram-se. Quase a sair, Vicente foi chamado por Davi, que lhe disse:
— Olhe, sabe que meu filho vem amanhã?
— Ah!
— Há de ver... que rapagão!
No dia seguinte o poeta apresentou-se em casa de Vicente. Emília foi recebê-lo.
— Ora, viva! disse ela, como está? Como se deu fora estes dois meses?... Sabe que a sua ausência foi sentida como se fora a de um amigo de longo tempo?
— Desconfio...
— Pois é verdade. Então, ainda volta?
— Não. Fico de uma vez.
— Tanto melhor.
— E desde já imponho, como condição disto, um perdão de sua parte.
— Um perdão?
— É verdade: um perdão.
— Que crime cometeu?
— Ah! não sou eu o culpado... é outro... É ele.
Emília abaixou os olhos e estremeceu.
— Ele... Valentim... meu filho.
— Filho... Pois?...
Vicente entrou na sala...
— Ajude-me, amigo, nesta empresa: eu peço o perdão de sua filha para meu filho.
— Seu filho... Quem?
— Valentim!
— Ah!
— E ao mesmo tempo pedir licença para uma reparação. Mas ouçam antes: não lhe disse algumas vezes, sr. Vicente, que eu tinha um desgosto em minha vida? Era Valentim. Saiu-me um filho mau como lhe contei na carta. Agora, como também lhe contei, fui buscá-lo. O motivo era simples. Soube da história de sua filha e fui em casa do rapaz com a intenção de fazer dele um marido capaz, custasse o que custasse. Fui ainda mais feliz. Achei-o mudado: o tempo e o infortúnio tinham-lhe mostrado o caminho errado em que andara. Trago-lhes uma pérola.
— Ah! — disse Emília lançando-se aos braços de Davi.
Dai a alguns minutos entrava na casa de Vicente o filho do poeta. Estava mudado até no rosto. Via-se que ele sofrera e aprendera com os anos.
Entrando foi ajoelhar-se aos pés de Emília e de Vicente. Ao perdão de ambos seguiu-se o casamento. Como fora convencionado os dois velhos não se mudaram, nem os dois filhos.
Valentim tornou-se um marido exemplar, um filho modelo. Esquecido o passado, cuidaram todos de fazer do presente a realidade daqueles sonhos de paz e de ventura que tantas vezes haviam tentado em sua vida.
E conseguiram.
Baixar texto completo (.txt)ASSIS, Machado de. O pai. Jornal das Famílias. Rio de Janeiro, 1866.